quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Deputado Dudu da Fonte, herdeiro de Severino, corregedor

O GLOBO, 3 de fevereiro de 2011

Discípulo de Severino é o novo xerife da Câmara. Deputado foi durante a passagem de Severino pela Câmara seu mais fiel escudeiro e só se refere ao ex-presidente da Casa como "padrinho".


Discípulo e herdeiro político de Severino Cavalcanti - ex-presidente da Câmara que renunciou ao mandato em 2005 para não ser cassado por receber um "mensalinho" -, o deputado Eduardo da Fonte (PP-PE) julgará os colegas suspeitos de quebra de decoro nesta Legislatura. Dudu, como é chamado, foi, durante a passagem de Severino pela Câmara, seu mais fiel escudeiro, uma espécie de carregador de pasta do "Padrinho", como chamava o mentor político. Dudu foi eleito 2º vice-presidente da Câmara, anteontem, e terá a função de ser o corregedor da Casa.

No seu segundo mandato, e aos 38 anos, o deputado pernambucano ingressou no Congresso Nacional como secretário particular de Severino em 2005. Um ano depois, em 2006, após a renúncia do presidente, a criatura se virou contra o criador e derrotou o antigo chefe nas eleições para a Câmara. Os dois dividem a mesma base eleitoral, no agreste de Pernambuco. Dudu levou a melhor.

Cabe ao corregedor analisar e emitir parecer sobre denúncias envolvendo parlamentares. A Mesa Diretora da Câmara analisa e decide se envia a denúncia ao Conselho de Ética. Prefeito da pequena cidade de João Alfredo (PE), com pouco mais de 30 mil habitantes, Severino lembrou-se ontem do antigo funcionário:

- O Eduardo é um rapaz excelente. Aprendeu e pegou todas as lições que passei e, tenho certeza, será um grande corregedor da Câmara - disse Severino Cavalcanti, que já foi corregedor da Câmara e preservou colegas acusados de ferir o decoro parlamentar.

Eduardo da Fonte chegou até Severino porque era amigo de um filho do ex-deputado, Severino Júnior, que morreu num acidente de carro em agosto de 2002. A derrota para Eduardo em 2006 não os separou. É o que asseguram os dois. Eleito prefeito em 2008, Severino apoiou Eduardo ano passado e garantiu boa votação para o discípulo, nos municípios que controla na região.

- Não ficou nenhuma mágoa. Votei nele ano passado. Eu e toda nossa família. Tem um futuro brilhante pela frente e espero que faça o que não me permitiram fazer na Câmara - disse Severino.

Eduardo só se refere a Severino como "padrinho":

- Temos boa relação. Venci aquela eleição mas a amizade continua - disse Eduardo.

Empresário em Pernambuco, Eduardo da Fonte obteve, em 2006, cerca de 110 mil votos para a Câmara. Teve um desempenho surpreendente ano passado e triplicou sua votação. Foi eleito com 330.520 votos. No estado, ficou atrás apenas de Ana Arraes (do PSB, com 380 mil votos), filha do ex-governador Miguel Arraes. Mas Eduardo ficou na frente de outros caciques da política pernambucana, como o veterano Inocêncio Oliveira (PR), o ex-senador Sérgio Guerra (PSDB), o ex-governador Mendonça Filho (DEM), o ex-prefeito de Recife João Paulo (PT); ainda superou dois ex-líderes do PT na Câmara: Maurício Rands e Fernando Ferro.

Entre as razões de seu sucesso nas urnas estão um bom volume de dinheiro e campanha casada com um pastor evangélico. Também obteve dividendos políticos como presidente da CPI das Tarifas de Energia Elétrica, que permitiu a redução de preços desse serviço em vários estados, incluindo Pernambuco.

- Esta foi a única CPI que, de fato, mexeu e beneficiou o bolso do brasileiro - contou, com orgulho, Eduardo da Fonte.

O novo corregedor da Câmara foi bastante cauteloso ontem ao falar de sua nova função. Ao contrário de Edmar Moreira (PR-MG), que assumiu esse mesmo posto em 2009 e, um dia após sua eleição, disse que a fraternidade entre os colegas e o espírito de corpo impediam cassações, foi econômico na resposta:

- A Corregedoria não pode ter amigos nem inimigos. Segue a Constituição - disse.
Em 2008, o parlamentar passou por um apuro que quase lhe custa a vida. Ele estava no pequeno avião em que viajava a banda Calypso. A aeronave caiu em Recife. Duas pessoas morreram. O avião se partiu ao meio e suas pernas ficaram para fora.

- Sobrevivi por um milagre.

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