quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Acuado, líder dos seguranças mostra dossiê contra Rossoni

GAZETA DO POVO, 3 de fevereiro de 2011

Ex-servidor conhecido como Tôca acusa presidente da Assembleia de irregularidades, mas não comprova denúncias


O presidente do Sindicato dos Servidores Legislativos (Sindi­­legis) e líder dos ex-seguranças da Assembleia, Edenilson Carlos Ferry, conhecido como Tôca, entregou ontem para a imprensa um “dossiê” com denúncias contra o novo presidente do Legislativo do Paraná, deputado Valdir Rossoni (PSDB). São 36 folhas em que estão listados supostos funcionários do gabinete parlamentar do tucano – desde 2000 até 2010 – que receberiam pagamentos irregulares.

Tôca acusa Rossoni de manter funcionários fantasmas no gabinete parlamentar e de pagar salários a alguns servidores acima do previsto em lei. Tôca garante que as informações foram repassadas por funcionários da Casa e que, se investigadas, serão comprovadas. Mas não apresentou qualquer comprovação de que a documentação é da Assembleia.

Tôca esteve no fim da tarde de ontem na sede do Grupo de Atuação de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), órgão do Ministério Público Estadual, para entregar o dossiê para o procurador Leonir Battisti. O Gaeco investiga as irregularidades mostradas pela Gazeta do Povo e pela RPC TV na série Diários Se­­cretos. “Qualquer investigação contra o presidente da Assem­­bleia deve ser aberta e conduzida pelo procurador-geral de Justiça (Olympio de Sá Sotto Maior) por causa do foro”, explicou o procurador por telefone. O presidente do Sindilegis ficou de se reunir com Olympio nos próximos dias para apresentar a documentação.

As denúncias contra Rossoni são uma reação à ocupação da Assembleia pelos policiais militares a partir da madrugada de ontem. Os seguranças que faziam a guarda da sede do Legislativo foram retirados dos postos de trabalho por determinação do novo presidente da Casa – com anuência do governador Beto Richa (PSDB). Tôca, que esteve na sede da Assembleia durante a ocupação da PM, na madrugada, falou em ditadura e chegou a chamar Rossoni de Hitler. “Isso que estamos vivendo aqui é um absurdo. Uma afronta aos funcionários desta Casa.”

A ocupação foi mais uma batalha da guerra travada entre Tôca e Rossoni desde que o tucano foi eleito presidente da Assembleia e anunciou uma série de mudanças na Casa. Quando todos os funcionários comissionados da Assembleia foram exonerados pela antiga gestão do Legislativo, na última segunda-feira, para cumprir à legislação federal, Tôca teria exigido de Rossoni a garantia de que os seguranças seriam recontratados – o que não aconteceu. Segundo Rossoni, antes da eleição para a presidência da Casa, alguns seguranças o teriam ameaçado, inclusive mostrando armas – o que foi negado por Tôca.


Pivô da ocupação, Tôca
se envolveu em várias polêmicas recentes

Há pouco mais de 30 anos, Edenilson Carlos Ferry, conhecido como Tôca, ocupa um cargo em comissão na Assembleia Legis­­lativa do Paraná. Muito conhecido entre os funcionários – e temido por alguns servidores e até por deputados estaduais –, Tôca ganhou visibilidade depois de um controverso processo que o levou até a presidência do Sindicato dos Servidores Legisla­­tivos (Sindilegis).

No ano passado, depois que a Gazeta do Povo e a RPC TV mostraram um grande esquema de desvio de dinheiro dentro da Assembleia Legislativa, a então presidente interina do sindicato, Diva Scaramella Ogibowski, acusou funcionários e seguranças da Casa de estarem tentando intimidá-la. Na época, ela disse que foi enganada e acabou assinando uma ação em que pedia restrições a o trabalho do Ministério Público na apuração das denúncias. Diva es­­tava no cargo porque o então presidente do sindicato, Abib Miguel, o Bibinho, tinha sido preso, acusado de integrar quadrilha que desviou pelo menos R$ 100 milhões da Assembleia.

Segundo Diva, um grupo de pessoas invadiu a sede do sindicato para forçá-la a assinar uma carta de renúncia da presidência da entidade – o que ela se negou a fazer. Dias depois, os diretores do sindicato destituíram Diva. O comando passou para uma junta interventora, na qual Tôca exercia liderança. Ele só assumiu a presidência do sindicato na sexta-feira passada, ao vencer uma eleição sem concorrentes. O Sindilegis anunciou que Tôca recebeu 686 de 699 votos.

Ainda no primeiro semestre de 2010, mais uma polêmica envolveu os seguranças da Casa e o nome de Tôca. O então presidente, deputado Nelson Justus (DEM), anunciou que apresentaria um projeto de lei em que criaria a Polícia Legislativa substituindo os seguranças. Insatisfeitos, eles teriam pressionado Justus e até agredido o chefe de gabinete do primeiro secretário, Alexandre Curi (PMDB). Policiais militares foram até a Assembleia, mas os agressores se trancaram na sala da segurança. Mais tarde, o caso foi tratado como um mal-entendido e descartou-se qualquer envolvimento de Tôca.

Outro fato que mostrou a influência do segurança sobre os funcionários da Casa foi a deflagração de uma greve, em outubro do ano passado, que resultou no fechamento da Assembleia por cinco horas. Dias antes da paralisação, o presidente do Sin­­dilegis foi até o Quartel Cen­­tral da Polícia Militar onde Bibinho estava preso. Na época, Tôca confirmou a visita, mas negou qualquer interferência externa nas decisões do sindicato e disse que visitou Bibinho na prisão apenas porque eles são amigos.

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