terça-feira, 4 de maio de 2010

Protesto vai lavar rampa do Congresso contra os fichas-sujas

GAZETA DO POVO, 4 de maio de 2010

Deputados votam hoje o projeto que tenta dificultar a candidatura de políticos com problemas na Justiça



Rodos, baldes e sabão em mãos, manifestantes favoráveis à aprovação do projeto Ficha Limpa vão deixar a rampa do Congresso Nacional brilhando para os deputados federais. A lavagem programada para hoje à tarde é mais uma tentativa de sensibilizar os parlamentares sobre a proposta, que dificulta a candidatura de políticos com problemas na Justiça. Após modificações que suavizam as restrições, o texto deve começar a ser votado pela Câmara.

O projeto de lei de iniciativa popular conta com assinaturas de 1,6 milhão de brasileiros. A pressão popular, porém, não foi suficiente para evitar que os deputados se afastassem da proposição original, que previa que o candidato perderia o direito de concorrer caso fosse condenado em primeira instância. A primeira alteração definiu que a inelegibilidade seria determinada apenas pela sentença de um tribunal colegiado.

Na semana passada, o relatório do deputado José Eduardo Cardozo (PT-SP) na Comissão de Constituição e Justiça foi mais além e acatou o pedido para que um efeito suspensivo possa validar a candidatura. Ou seja, quem for condenado por órgão colegiado e recorrer da decisão pode se valer do dispositivo e se candidatar. A concessão do efeito suspensivo obriga, por outro lado, que o processo passe a tramitar com prioridade.

“Nós aceitamos essa concessão porque ela, na prática, dará mais celeridade aos processos”, diz a coordenadora do Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral (MCCE), Jovita José Rosa. Para ela, o candidato que sabe que será condenado vai optar por desistir da campanha por medo de que a ação seja julgada rapidamente. “Não é a proposta original, mas produz um efeito bem mais razoável.”

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Parabéns Lei de Responsabilidade Fiscal

AMIR KHAIR, 4 de maio de 2010


Hoje completa dez anos a Lei Complementar n.º 101, de 4 de maio de 2000, conhecida como a Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF). É com orgulho e satisfação que devemos comemorar essa lei, que foi um marco na história fiscal do País. Ela estabeleceu as bases sobre as quais se assentam os princípios da boa gestão fiscal de forma abrangente para toda a área pública, envolvendo União, Estados e municípios, incluindo os poderes Executivo, Legislativo, Judiciário e o Ministério Público. Vale destacar as bases sobre as quais se assenta a LRF, destacadas em seu artigo 1.°: planejamento, transparência, prevenção de riscos e correção de desvios capazes de afetar o equilíbrio das contas públicas, cumprimento de metas de resultados entre receitas e despesas, obediência a limites e condições para a renúncia de receita, geração de despesas, dívidas, operações de crédito, concessão de garantia e inscrição em restos a pagar.

Foi uma lei que "pegou", ou seja, tornou-se efetiva em razão da sua irmã, a Lei n.º 10.028, de 19 de outubro de 2000, mais conhecida como a Lei dos Crimes Fiscais, que estabeleceu as punições penais para as infrações a dispositivos da LRF, e, especialmente, por causa do apoio decisivo da mídia não só para a sua implantação, mas, principalmente, para frustrar as diversas tentativas feitas para alterá-la no sentido de remover suas exigências. Não é uma lei perfeita e, certamente, será aprimorada após esses 10 anos, mas deve-se ficar vigilante para que ocorram aperfeiçoamentos e não abrandamentos de suas exigências.

Algumas questões importantes ficaram ausentes da LRF, como, por exemplo, o rigor no pagamento de precatórios - uma das maiores vergonhas fiscais do País. São dívidas que o setor público tem por decisões do Poder Judiciário, que eram sistematicamente desrespeitadas. Trata-se de valores estimados para Estados e municípios em R$ 100 bilhões, que foram presenteados pelo Congresso Nacional pela Emenda Constitucional n.º 62, de 9 de dezembro de 2009, que instituiu, na prática, o calote oficial nos precatórios, reduzindo sobremaneira esse débito ao obrigar parte dos credores a disputar seus direitos na bacia das almas dos leilões de deságio e alongando ainda mais os pagamentos ao estabelecer porcentuais irrisórios sobre a receita dos entes federados.

Outra questão ausente que pode transformar em peças de ficção os orçamentos públicos de Estados e municípios é a falta do estabelecimento de limite para a margem de suplementação na execução orçamentária. A Lei Orçamentária Anual, peça central do planejamento fiscal, contém um artigo que estabelece a margem de suplementação, que é um porcentual da receita total que o Executivo pode utilizar para fazer alterações no orçamento, sem depender de aprovação do Legislativo. Na maioria dos casos, esse porcentual é elevado, o que permite ao Executivo alterar radicalmente o orçamento aprovado. É um cheque em branco, praticamente sem limite.

Restam ainda por implantar alguns dispositivos da LRF por parte do Congresso Nacional, como, por exemplo, a criação do Conselho de Gestão Fiscal, que deverá fazer o acompanhamento e a avaliação, de forma permanente, da política e da operacionalidade da gestão fiscal - o que uniformizará as interpretações dos tribunais de contas -, e, pelo Senado Federal, efetuar a aprovação da proposta enviada em agosto de 2000 pelo presidente da República para os limites globais para o montante da dívida consolidada da União.

Apesar desses problemas, a LRF trouxe, sem dúvida, notável contribuição ao equilíbrio fiscal do País. Foram reduzidas as relações da despesa de pessoal e das dívidas de curto e longo prazos em relação à receita, para todos os níveis de governo, e são raros os casos de transgressão a esses limites. As heranças fiscais foram substancialmente reduzidas, o que permite que o governo que se inicia não passe os primeiros anos pagando débitos do antecessor. Parabéns a todos os que contribuíram para essa grande conquista e que a mídia continue desenvolvendo o importante papel que desempenhou para esse sucesso.

AMIR KHAIR, mestre em finanças públicas pela FGV-SP, é consultor. Foi secretário de Finanças da Prefeitura de São Paulo na gestão Luiza Erundina (1989-1992).

Por 9 a 8, Câmara absolve vereador londrinense

JORNAL DE LONDRINA, 4 de maio de 2010

Vereador acusado de conduta incompatível pela Corregedoria da Casa manteve o mandato


O vereador Rodrigo Gouvêa (sem partido) foi absolvido ontem pelo Plenário da Câmara, da acusação de conduta incompatível com o decoro parlamentar, no caso da contratação de uma ex-assessora para o seu gabinete. O placar da votação ficou em 9 a 8 a favor do relatório da Comissão Processante, que opinava pela improcedência da representação feita pela Corregedoria da Câmara. Seriam necessários 10 votos para derrubar o relatório assinado por Tito Valle (PMDB) e Sandra Graça (PP), respectivamente relator e presidente da CP. A sessão, iniciada com atraso, depois das 8 horas, acabou pouco antes das 13 horas. No resultado, prevaleceu o espírito de autopreservação dos vereadores, já que dos 9 que votaram a favor do relatório, 4 ou são réus em ações propostas pelo Ministério Público ou são investigados (leia texto nesta página).

Depois de absolvido, Gouvêa deixou o plenário dizendo que encarava “com maior naturalidade o resultado da votação” porque pediu para “ser investigado”. “Agora começa a limpeza na política”, completou. Seu advogado, Guilherme Gonçalves, embora tenha feito um discurso voltado para o público interno, dando a entender que os vereadores não poderiam “se curvar”, condenando Gouvêa (leia texto nesta página), negou que os vereadores tenham votado no sentido de se autopreservar. “Eles votaram com a consciência”, declarou o advogado.


Suspeições
A sessão de julgamento começou com mais de uma hora de atraso, por conta da “batalha das suspeições”. A decisão do juiz designado para o plantão, Abelar Baptista Pereira Filho, responsável pelo despacho na medida cautelar que pedia a suspeição de Sandra Graça (PP), Tito Valle (PMDB) e Paulo Arildo (PSDB), chegou pouco depois de aberta a sessão, por volta das 8h10. A chegada do oficial de Justiça motivou a primeira interrupção da sessão. No despacho, o juiz deferia parcialmente a liminar: ele não declara suspeitos os três vereadores, mas determina que eles sejam avisados de que a sua presença no julgamento “pode vir a permitir arguições judiciais de vício do procedimento”. O autor da ação, cujo nome vinha sendo mantido sob sigilo pelo seu advogado, é José Valdemor Landioso.

“O juiz não declarou e não reconheceu a suspeição de nenhum desses vereadores, apenas concedeu parcialmente a liminar. Os três vereadores têm a possibilidade de, sentindo-se à vontade participar da sessão normalmente”, declarou a procuradora da Câmara, Michele Bazo. Minutos antes da votação, Arildo declarou-se suspeito e deixou o plenário.

A defesa de Gouvêa também pediu a suspeição de Ivo de Bassi (PTN) e Roberto Fu (PDT), mas o pedido foi indeferido e os dois votaram.

Dos nove, quatro são investigados
Dos nove votos que livraram Rodrigo Gouvêa (sem partido) da cassação, quatro partiram de vereadores que são réus ou investigados pelo Ministério Público, acusados de terem cometidos irregularidades – e que podem, no futuro , ser alvo de representações da Corregedoria da Câmara. Joel Garcia (PDT), também acusado de contratar “funcionário fantasma”; Sandra Graça (PP) foi denunciada pelo MP sob a mesma acusação; Jacks Dias (PT) é investigado pelo MP sob a suspeita de ter cobrado propina de uma empresa que prestava serviços terceirizados à Prefeitura de Londrina, na época em que ele foi secretário de Gestão Pública; Tito Valle (PMDB) é investigado pelo MP sob a suspeita de dividir salários com um ex-assessor.

Paulo Arildo (PSDB), que pouco antes da votação do relatório se declarou suspeito e não votou, é réu numa ação protocolada pelo MP sob a acusação de dividir salários com ex-assessores.

Advogado chora, alfineta e faz apelo contra “injustiça”
A principal personagem do julgamento realizado na manhã de ontem, na Câmara Municipal, foi o advogado Guilherme Gonçalves, defensor de Rodrigo Gouvêa (sem partido), que nos 54 minutos em que fez a defesa do seu cliente chorou duas vezes, jogou pesado no sentimento de auto-preservação dos vereadores e reverteu pelo menos dois votos que eram contabilizados como favoráveis à cassação: os do quinto suplente da chapa do PTB, Ademir Zacarias da Silva, o “Ademir da Empinox” e o de Paulo Arildo (PSDB). No caso do tucano, seu partido tinha fechado questão pela cassação (leia texto nesta página).

O advogado lembrou o “injusto processo de improbidade” no qual Arildo é réu, no caso em que ele é acusado dividir salários com ex-assessores. Segundo ele, com a condenação de Gouvêa, a Casa estaria “se curvando ao entendimento de que os políticos são culpados”. “Hoje é o Rodrigo, amanhã pode ser outro. Percebam o precedente que estão criando, vulnerando as suas próprias garantias”, insistiu o advogado.

Sutilmente ele alfinetou Roberto Fu (PDT), lembrando que o vereador é réu numa ação criminal na qual é acusado de receptação. Ele também alfinetou o PSDB de Londrina. Primeiro lembrou do caso de Eduardo Graeff, absolvido na semana passada. Depois, disse ainda que o partido fechou questão pela cassação, como retaliação a Gouvêa ter participado da coligação que apoiou Luiz Carlos Hauly (PSDB) no primeiro turno, mas ter subido no palanque de Barbosa Neto (PDT) no terceiro. “É essa mudança que o PSDB está cobrando a conta ao fechar questão”, disparou.

Gonçalves citou casos de denúncias ou de ataques sofridos pela maioria dos partidos com representação na Casa, passando de Leonel Brizola, fundador do PDT ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Ele chorou pela primeira vez ao falar do londrinense Gilberto Carvalho, do PT, segundo ele acusado injustamente de envolvimento em irregularidades. “Se dependesse da mídia, o presidente Lula não era presidente e o Gilberto Carvalho estaria preso”, disse o advogado olhando para os vereadores do partido.

Nos minutos ele voltou a chorar ao argumentar que a condenação do cliente seria uma injustiça. “A minha geração é intolerante com a intolerância”, afirmou. Por outras palavras, disse que não aceita que a pretexto de “falso moralismo” sejam feitos justiçamentos. “Não posso aceitar que essa Câmara vai se submeter. Não pode sacrificar e levar a morte política um colega de vocês que não fez absolutamente nada”, concluiu o advogado.

A estratégia funcionou
Defesa alegou falta de quesitos no relatório Além de ter dado um “nó” na cabeça de dois vereadores que eram considerados votos certos pela cassação – o suplente Ademir Zacarias da Silva (PTB) e Paulo Arildo (PSDB), o advogado Guilherme Gonçalves desconstruiu o próprio relatório da Comissão Processante, que era favorável à defesa. Gonçalves apontou que o relatório da CP não apontou quesitos a serem votados em plenário. “Em não havendo relatório ou qualquer outra manifestação, não há quesito a ser votado. O relatório não aponta nenhum quesito”, argumentou. Ele tentou usar a falta de quesitos a seu favor: sem quesito a ser votado, Rodrigo Gouvêa (sem partido) só seria cassado com a rejeição do relatório. O que só poderia ser feito com os votos de dois terços dos vereadores: 13 votos – e não 10, como manifestou a Procuradoria anteriormente.

“Estilo circense” motivou bate-boca No final do julgamento, ainda houve um rápido bate-boca entre o advogado Guilherme Gonçalves e o corregedor Rony Alves (PTB). Alves dava entrevista coletiva e ironizava o "estilo circense" de Gonçalves, na defesa de Rodrigo Gouvêa (sem partido) – referência às duas vezes em que o advogado chorou. Logo depois do encerramento da entrevista, Gonçalves interpelou Alves. Lembrou que defendeu o vereador num processo no Tribunal Regional Eleitoral (TRE), no qual o petebista foi denunciado devido a problemas na prestação de contas de campanha eleitoral. "Pense nas suas contas rejeitadas lá no TRE, o TRE não me achou circense, para o bem do senhor", disparou o advogado, que sozinho, ganhou o julgamento na Câmara.


Veja como votaram os vereadores londrinenses

CONTRA A CASSAÇÃO
A favor do relatório – 9 votos


Ademir Zacarias da Silva (PSC)
Jacks Dias (PT)
Jairo Tamura (PSB)
Joel Garcia (PDT)
Marcelo Belinati (PP)
Pastor Renato Lemes (PRB)
Roberto da Farmácia (PTC)
Sandra Graça (PP)
Tito Valle (PMDB)


PELA CASSAÇÃO
Contra o relatório - 8 votos


Eloir Valença (PT)
Gérson Araújo (PSDB)
Ivo de Bassi (PTN)
José Roque Neto (PTB)
Lenir de Assis (PT)
Roberto Fu (PDT)
Roberto Kanashiro (PSDB)
Sebastião dos Metalúrgicos (PDT)

*Paulo Arildo (PSDB) se absteve

Confira como foi o julgamento de Rodrigo Gouvêa

BONDE, 4 de maio de 2010

Confira como foi a cobertura do site Bonde no processo da votação que resultou na absolvição de Rodrigo Gouvêa:

13h44 - Guilherme Gonçalves, advogado do Rodrigo Gouvêa, fala à imprensa. "A prisão preventiva dele foi um absurdo. Não havia prova alguma de irregularidade".

13h41 - Gouvêa deixa o plenário, abraça algumas pessoas. "A Casa fez Justiça", resumiu.

13h35 - Por nove votos a oito, Rodrigo Gouvêa é absolvido pela Câmara.

13h33 - Paulo Arildo se abstém da votação e deixa o plenário.

13h32 - José Roque Neto dá início ao processo de votação.

13h30 - Ivo de Bassi e Roberto Fu participarão normalmente da votação.

13h28 - Vereadores se encaminham ao plenário. Votação deve começar em cerca de cinco minutos.

12h52 - Sessão é novamente suspensa por 30 minutos antes da votação dos vereadores.

12h51 - Advogado encerra a defesa: "Não se dobrem a este moralismo fácil. Vossas excelências serão as próximas vítimas."

12h48 - "Menino de classe media, boa familia, ficou 22 dias preso, acusado de ser desonesto. Uma conduta absolutamente normal. O MP na denúncia formal, não teve a coragem de dizer que o Rodrigo se apropriava de salários. Diziam que a intenção dele era ampliar a votação. Qual é o político que não quer isso? Em Londrina isso é crime", disse o advogado.

12h30 - Advogado chora ao citar injustiças cometidas contra políticos e lembra o 'amigo pessoal' Gilberto Carvalho, chefe de gabinete do presidente Lula.

12h19 - Advogado faz críticas ao Ministério Público. "Não se sintam oprimidos a exercer mandato. Caso contrário, vamos transformar camara em uma instituição burocrata. O promotor está mais interessado em mídia".

12h01 - Advogado pede que vereadores Ivo de Bassi e Roberto Fu não participem da votação, já que Bassi teria renunciado ao cargo da Comissão Processante por ser parte envolvida e que a denúncia teria partido do gabinete de Fu.

11h56 - Guilherme Gonçalves, advogado do Rodrigo Gouvêa, terá 60 minutos para apresentar a defesa do vereador.

11h54 - Tito Valle foi o primeiro a falar. Relator do processo, ele defendeu Gouvêa, dizendo que todas as 12 testemunhas ouvidas disseram que a funcionária comparecia à Câmara.

11h49 - Começam os discursos dos vereadores. Cada um tem cinco minutos para falar.

11h48 - Termina leitura de documentos.

10h57 - Tito Valle lê o relatório final da Comissão Processante.

9h36 - Todos os documentos (acusação, defesa e relatório) serão lidos. Logo após, todos os vereadores terão cinco minutos para se manifestar antes da votação.

9h34 - José Roque Neto está lendo a denúncia contra Rodrigo Gouvêa.

9h33 - Sessão recomeça e vereadores Tito Valle, Paulo Arildo e Sandra Graça afirmam que vão participar da votação.

9h03 - Liminar foi pedida pelo autônomo José Valdemor Landioso, por meio do advogado José Henrique Ferreira Gomes e deferida pelo juiz Abelar Baptista Pereira Filho às 22h31 de domingo (2).

8h54 - Trabalhos são suspensos por dez minutos a pedido de Tito Valle. Ele quer conversar com Sandra Graça e Paulo Arildo para decidir sobre a participação no julgamento.

8h51 - Michelle Bazzo, procuradora jurídica da Câmara explica teor da liminar. "Juiz não reconheceu a suspeição dos vereadores. Apenas concedeu liminar parcial para que o presidente da Casa fizesse a observação. Os vereadores citados podem votar normalmente".

8h49 - José Roque Neto reinicia a sessão.

8h44 - Guilherme Gonçalves, advogado de Gouvêa: "é preciso investigar o porquê desta conturbação. Não conheço este advogado e não há conexão jurídica entre os fatos".

8h39 - Tito Valle, relator do processo, comenta liminar que pode suspender o julgamento. "Sou o relator. Se não puder votar no relatório que eu mesmo fiz, invalida todo o trabalho".

8h34 - O vice-presidente da Casa, Jairo Tamura, pede a suspensão da sessão por mais 15 minutos.

8h27 - O advogado de Rodrigo Gouvêa, Guilherme Gonçalves, diz desconhecer quem seria o autor do pedido de liminar.

8h25 - Neste momento, a sessão está suspensa. O presidente da Casa recebe um oficial de Justiça com uma liminar que tenta suspender o julgamento. A alegação seria de que vereadores que recebem acusações, como Sandra Graça, Tito Valle e Paulo Arildo não podem participar do julgamento.

8h20 - Ademir Zacarias da Silva, suplente convocado para participar do julgamento, assume o cargo. Ele é filiado ao PTB e substitui Rony Alves, corregedor da Câmara e autor da denúncia.

8h19 - Rodrigo Gouvêa está presente, ao lado de seus advogados

8h16 - José Roque Neto, presidente da Câmara, declara aberta a sessão de julgamento. Dez vereadores estão presentes no plenário.

8h12 - São necessários pelo menos dez vereadores para iniciar a sessão de julgamento. Ainda não há quórum suficiente.

8h10 - Ao contrário do que se esperava, a galeria aberta ao público está vazia. Um esquema de segurança foi montado na entrada da Câmara.

8h06 - Os vereadores estão chegando em plenário para iniciar a votação.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Câmara pode votar projeto ficha limpa e MP dos aposentados nesta semana

G1, 3 de maio de 2010

Tamanho do reajuste dos aposentados divide base aliada.
Projeto ficha limpa também encontra resistências na Casa.



O projeto que proíbe a candidatura de políticos condenados pela Justiça e a Medida Provisória que dá reajuste a aposentados são os principais temas da pauta da Câmara dos Deputados nesta semana. A previsão é que ambos os temas sejam debatidos em plenário a partir desta terça-feira (4).

A primeira polêmica em debate será o reajuste dos aposentados que ganham acima de um salário mínimo. O governo editou uma Medida Provisória dando reajuste de 6,14% desde janeiro. O Congresso, no entanto, discute um aumento deste percentual.

O líder do governo na Câmara, Cândido Vaccarezza (PT-SP), colocou em seu relatório um percentual de 7% de reajuste, que ele garante já estar acertado com o Executivo. Partidos da base aliada, no entanto, tentam elevar o reajuste para 7,7%. Esta posição, inclusive, tem fortes apoios no Senado, como do líder do PMDB, Renan Calheiros (AL). O DEM, no entanto, quer dar o mesmo aumento que foi dado ao salário mínimo, de cerca de 10%. Diante do impasse, a MP já tranca a pauta da Câmara há algumas semanas.

O projeto ficha limpa também está longe de encontrar unanimidade. Na semana passada, por exemplo, deputados de PMDB, PR, PTB e PSC impediram que a proposta fosse votada na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ). Diante disso, líderes que representam 14 partidos cumpriram um acordo anterior e assinaram um requerimento de urgência para que a proposta seja discutida direto no plenário.

A assinatura dos líderes, no entanto, não é garantia de aprovação. O pedido de urgência assinado pelos líderes será submetido a votação em plenário na próxima terça-feira (04). Para o projeto entrar definitivamente na pauta do plenário é preciso o voto nominal de 257 deputados a favor da urgência. Após essa etapa é que se votaria o mérito do projeto. Existe a possibilidade de a votação do mérito ficar para quarta-feira (05) se a urgência for aprovada.

O projeto tenta barrar candidaturas de pessoas condenadas pela Justiça que ainda tem processos tramitando devido a recursos. A proposta original, do Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral (MCCE), que recebeu mais de 1,6 milhão de assinaturas, previa a proibição de candidatura para quem fosse condenado em primeira instância.

Na Câmara, o texto já ganhou duas versões. Na primeira, só seria barrado quem fosse condenado por órgão colegiado. Na última, apresentada nesta manhã pelo relator José Eduardo Cardozo (PT-SP), seria permitido ainda um recurso a outro órgão colegiado superior para se conseguir uma espécie de “autorização” para a candidatura. Nesses casos, o político que conseguisse se candidatar teria seu processo analisado com prioridade pelo Judiciário.

Revoltado, Nelson Motta compõe "Hino da Ficha Limpa"

FOLHAONLINE, 3 de maio de 2010

A campanha em favor do Projeto Ficha Limpa ganhou um hino --ou melhor, uma marchinha. Escrita pelo produtor e jornalista Nelson Motta, a canção surgiu após um encontro com o também produtor Liminha.

De acordo com Motta, o objetivo seria compor algo simples em cima de uma música já conhecida. "Foi fácil, porque a revolta inspira", diz o jornalista.

No podcast abaixo, Motta diz esperar que o hino se torne um hit neste ano de eleições. "Eu quero que esta música persiga esses fichas sujas e em cada lugar que eles forem tenha gente cantando na cara deles", declara.

Apesar da recusa em cantar o hino, Mota afirma que ele deve ser entoado no ritmo de "Cidade Maravilhosa".


Hino da Ficha Limpa
Letra: Nelson Motta
Arranjo: Liminha

É hora
de pôr pra fora
nossa opinião
bandido é pra cadeia
não é pro Congresso não

(bis)

Ficha no lixo
se lixa pra nós
suja a democracia
rouba do povo e compra eleição
pra não ir para a prisão-ão-ão

É hora
de pôr pra fora
nossa opinião
bandido é pra cadeia
não é pro Congresso não

Manifestantes fazem passeata pelo Projeto Ficha Limpa

O GLOBO, 3 de maio de 2010

RIO - Pelo menos 500 pessoas participaram na manhã deste domingo, na Zona Sul do Rio, da caminhada para pressionar o Congresso a aprovar a proposta de iniciativa popular que tenta vetar a candidatura de políticos condenados pela Justiça, o chamado projeto Ficha Limpa. A passeata saiu do Posto 9, em Ipanema, e seguiu até o Leblon. Acompanhados por um carro de som e pela bateria de uma escola de samba, os participantes percorreram a orla com a bandeira do Brasil, camisetas e cartazes com palavras de ordens. Políticos, entre eles o pré-candidato ao governo do Rio pelo PV, deputado federal Fernando Gabeira, estiveram presentes no evento. A cantora Fernanda Abreu e o músico Dado Vila-Lobos também fizeram parte da mobilização. ( Veja fotos da manifestação )

- Terça-feira o projeto deverá ser votado. Primeiro, votaremos o regime de urgância. Em seguida, partiremos para votar o conteúdo do projeto. O fundamental é que a votação será aberta. Quem for contra, terá que ser expor e dizer que é contra o Ficha Limpa. Os partidos (PT-PMDB-PR-PP-PTB) que, inicialmente, foram contra já voltaram atrás. Na minha opinião, é por pura pressão popular no momento de pré-campanha eleitoral - afirmou o deputado federal Índio da Costa (DEM), relator do projeto de Lei do Ficha Limpa.

A caminha foi promovida pela Nova Organização Voluntária Estudantil (Nove) e outras entidades. Foi lançada também uma música sobre o tema composta pelo jornalista Nelson Motta.

Vereador Rodrigo Gouvêa é absolvido na Câmara Municipal de Londrina

INSTITUTO AME CIDADE, 3 de maio de 2010

Por nove votos contra oito o vereador londrinense Rodrigo Gouvêa (sem partido, ex-PRP) foi absolvido na manhã desta segunda-feira e não teve o mandato cassado. A Câmara de Vereadores de Londrina aprovou o parecer final da Comissão Processante instaurada para investigar o vereador, que era acusado de manter uma funcionária fantasma em seu gabinete. A Comissão apresentou o relatório na última segunda-feira, opinando pela “improcedência” da denúncia.

O vereador absolvido hoje pela Câmara é investigado também pelo Ministério Público. Além da denúncia de manter uma funcionária fantasma em seu gabinete, o MP investiga também a suspeita de cobrar propina para votar leis. Ele já foi denunciado por corrupção passiva e improbidade administrativa. O vereador foi também foi expulso do PRP por infidelidade por ter apoiado Barbosa Neto, na eleição para prefeito de Londrina.

No ano passado, Gouvêa ficou 23 dias preso nos meses de outubro e novembro, no Centro de Detenção e Ressocialização (CDR), em Londrina, acusado pelo MP de coação de testemunhas e tentativa de atrapalhar as investigações.


Veja como votaram os vereadores londrinenses

CONTRA A CASSAÇÃO
A favor do relatório – 9 votos


Ademir Zacarias da Silva (PSC)
Jacks Dias (PT)
Jairo Tamura (PSB)
Joel Garcia (PDT)
Marcelo Belinati (PP)
Pastor Renato Lemes (PRB)
Roberto da Farmácia (PTC)
Sandra Graça (PP)
Tito Valle (PMDB)


PELA CASSAÇÃO
Contra o relatório - 8 votos


Eloir Valença (PT)
Gérson Araújo (PSDB)
Ivo de Bassi (PTN)
José Roque Neto (PTB)
Lenir de Assis (PT)
Roberto Fu (PDT)
Roberto Kanashiro (PSDB)
Sebastião dos Metalúrgicos (PDT)

*Paulo Arildo (PSDB) se absteve

Ministério Público MP recuperar verba desviada na ALssembleia Legislativa

O DIÁRIO DE MARINGÁ, 3 de maio de 2010


Arion Rolim Pereira é Procurador de Justiça e Coordenador do Centro de Apoio Operacional das Promotorias de Proteção ao Patrimônio Público. Junto com o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) e mais um grupo de procuradores, está na linha de frente das investigações do escândalo das contratações irregulares na Assembleia Legislativa do Paraná que pode chegar a um prejuízo de R$ 40 milhões aos cofres públicos.

Nesta entrevista ele ressalta a necessidade das investigações sobre as irregularidades da Assembleia serem levadas até o fim para que os responsáveis sejam punidos, além do ressarcimento dos recursos obtidos ilegalmente.

Mesmo com a prisão prorrogada dos três ex-diretores da Casa, Abib Miguel (Diretoria Geral), Cláudio Marques (Recursos Humanos) e José Ary Nassiff (Administrativo), além do servidor João Leal, Rolim espera que outros envolvidos que estão sob investigação do MP, alguns há cerca de seis meses, também prestem contas das suas ações.

Para isso, espera também que a Justiça reavalie a decisão que respalda o recurso da Associação dos Servidores da AL, que restringe as informações sobre os dados de todos os servidores da Assembleia Legislativa. Além disso, os integrantes da Mesa Executiva da Assembleia também estão na mira do MP e devem ser chamados para explicar as contratações feitas nos últimos anos.


O DIÁRIO - Como estão as investigações na Assembleia?
ARIEL ROLIM - Estão transcorrendo dentro da normalidade. O MP já há algum tempo vinha investigando a Assembleia, com cerca de 200 procedimentos e uma dúzia de ações. Algumas dessas notícias que estão sendo divulgadas agora já estavam sendo investigadas, outras trouxeram detalhes que nós não tínhamos.


O DIÁRIO - A população não acredita, segundo pesquisa, em resultados efetivos. O senhor acredita que o desfecho desse caso será positivo?
ARIEL ROLIM - Há cerca de um mês eu disse que esperava três espécies de resultados: no curto, no médio e no longo prazo. No curto prazo, além da instauração dos procedimentos, esperava atitudes da Assembleia para sanear algumas questões e prestar informações ao MP. Isso tem ocorrido. A médio prazo, espero que, com a conclusão das investigações, possamos propor as ações cíveis e criminais para responsabilizar os responsáveis e beneficiários desses atos, pedindo as sanções cabíveis, como perda do cargo e multa. Também vamos pedir o ressarcimento desses valores. A longo prazo, esperamos a resposta a essas ações, que seria o julgamento, a condenação dessas pessoas.


O DIÁRIO - Como está a situação dos 73 carros, de propriedade de Abib Miguel?
ARIEL ROLIM - Eles podem servir para ressarcir os prejuízos causados em decorrência de uma ação cível, para a reparação do dano. Esses bens já estão indisponíveis.


O DIÁRIO - Sobre as ações anteriores do MP, existem pessoas que já eram alvo de investigações e estão envolvidas nas recentes denúncias?
ARIEL ROLIM - Nesses procedimentos que já tínhamos, algumas dessas pessoas que lá estavam foram objeto de matéria jornalística agora, mas outras não. Mas temos procedimentos que tratam de fatos que não estão em matérias.


O DIÁRIO - Como as investigações chegaram até a Mesa Diretora?
ARIEL ROLIM - Vieram notícias de irregularidades com relação a alguns servidores nomeados pela Mesa. Esse procedimento é aquele que indica algumas situações e nomina 40 pessoas, as quais estariam em uma ou mais situações e que por isso seriam investigadas. Mas essas pessoas não esgotam o objeto de investigação. Por isso haverá recurso contra a decisão judicial que limitou a prestação de informações ao MP somente em relação às 40 pessoas nominadas, pois não são só elas que deverão ser investigadas. Em relação à Mesa, foi informado que uma série de servidores que são nomeados por ela prestam serviços em outros locais, daí a razão de ter sido instaurado outro procedimento, que nada mais é do que uma decorrência desse primeiro.


O DIÁRIO - Os integrantes da Mesa Executiva serão investigados? Eles irão depor?
ARIEL ROLIM - Até o momento não houve necessidade de ser colhido o depoimento, mas, se houver, nós vamos providenciar.


O DIÁRIO - O MP espera a colaboração deles?
ARIEL ROLIM - Sim, pois em uma situação dessa ninguém deve deixar de colaborar com o MP. Esperamos a colaboração principalmente de todo mundo que integra a AL, colaboração do Poder Judiciário, no sentido de dar respostas às medidas que nós propusemos; da sociedade em geral, das pessoas que souberem de alguma coisa e que inqueridas possam fazer a prova com relação a algum fato.


O DIÁRIO - Já existe a estimativa dos prejuízos provocados aos cofres públicos?
ARIEL ROLIM - Há uma conta prévia pelos promotores que pediram a indisponibilidade de bens, pois quando você entra com esse pedido, precisa de uma estimativa para pedir a indisponibilidade de bens, porque se os prejuízos estimados fossem pequenos, nós não poderíamos pedir uma apreensão de um patrimônio enorme por conta do mesmo. Se o prejuízo é grande, e no caso tudo indica que seja, temos que fazer um pedido de apreensão de bens considerável, que baste para a execução de uma indenização.


O DIÁRIO - Como o senhor vê essa tentativa de impedimento da liberação de dados dos servidores?
ARIEL ROLIM - Todo servidor público, segundo a Lei de Improbidade Administrativa estabelece, tem como obrigação apresentar declaração de bens quando toma posse, mesmo que seja em um cargo de pequena relevância, tendo ainda a obrigação de anualmente, um mês após o término do prazo de encerramento da declaração do Imposto de Renda - final de maio-, apresentar a sua declaração de bens, para se saber se a evolução patrimonial que aquele servidor público tem é compatível com seus vencimentos. Por outro lado, quando se fala de sigilo de informações, pode-se colocar que ele existe em relação ao público em geral, mas não em relação ao MP, não para a Administração Pública.


O DIÁRIO - Como foi possível esse grau de descaso e falta de zelo com o dinheiro público no Legislativo?
ARIEL ROLIM - Pelo que se apurou até agora, durante muitos anos a administração funcional da Assembleia ficou sob a responsabilidade de uma só pessoa, o Abib Miguel, que era auxiliado, no mínimo, por outras duas pessoas, Cláudio Marques da Silva e José Ary Nassiff, tendo isso proporcionado a ocorrência dos desvios.


O DIÁRIO - Seria isso uma conseqüência da falta de fiscalização sobre a Assembleia ou sobre o responsável pela gerência desses recursos?
ARIEL ROLIM - O poder de administrar e a confiança depositada na Diretoria Geral e seus auxiliares mais imediatos possibilitou esses desvios, que não foram detectados pelo órgão de fiscalização - no caso o Tribunal de Contas do Estado - pois, em princípio, as despesas efetuadas com pessoal - onde estão sendo detectadas as irregularidades - ao que parece tinham aparência de estarem sendo realizadas dentro dos requisitos formais.


O DIÁRIO - Somente uma atitude rigorosa, de punição, seria capaz de inibir novas ações de desvios, ao menos no âmbito do Legislativo?
ARIEL ROLIM - Já em um primeiro momento, quando me pronunciei sobre os fatos, disse que esperava resultados em curto, médio e longo prazos. De imediato, medidas da própria Assembleia Legislativa, visando cessar as irregularidades que proporcionavam os desvios. Um pouco depois, ao cabo das investigações que estão sendo desenvolvidas pelo Ministério Público, a propositura das ações cíveis, o que implica em sanções, dentre as quais perda da função pública e multa, ressarcimento do dano e penais cabíveis. E, após o trâmite de referidas ações, o julgamento delas pelo Poder Judiciário, com a imposição das sanções cíveis e penais. Penso que, assim ocorrendo, certamente, haverá uma especial prevenção no âmbito da Assembleia para que fatos semelhantes não mais ocorram. E haverá, também com certeza, uma prevenção geral no âmbito de toda a administração pública do Paraná, nela compreendida todos os poderes, instituições e demais órgãos que desempenham uma parcela que seja do serviço público, que, como o nome já diz, existe para servir ao público e não para dele se servir.

Lei de Responsabilidade Fiscal: há dez anos o dinheiro público passou a ser tratado com mais respeito

CLAUDIA SAFATLE, VALOR ECONÔMICO, 3 de maio de 2010


Um contrabando no projeto da reforma administrativa forjou o nascimento da Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF), que produziu, em dez anos de vigência, uma profunda reforma nas finanças dos Estados e municípios brasileiros. As primeiras discussões sobre a necessidade de um código de conduta para as finanças públicas começou, por iniciativa do então deputado José Serra, hoje candidato à Presidência da República pelo PSDB, na Assembleia Constituinte de 1988. Proposto por Serra, o artigo 163 da Constituição remetia a uma lei complementar a tarefa de disciplinar as finanças públicas.

Uma década depois, em 1998, a emenda constitucional 19, que tratava da reforma administrativa, recebeu, no Congresso, uma emenda que até hoje não se sabe ao certo quem escreveu. Por ela, o presidente da República, na época Fernando Henrique Cardoso, teria que enviar ao Congresso, em 180 dias, um projeto de lei complementar com a proposta de um Código de Finanças Públicas. E isso foi feito.

Um grupo de técnicos elaborou o anteprojeto, inspirado nos modelos vigentes na Austrália e Nova Zelândia, que davam à questão fiscal um tratamento de mais longo prazo. O nome, Lei de Responsabilidade Fiscal, foi copiado da Nova Zelândia.

Os primeiros rascunhos começaram a ser escritos pelos economistas e assessores oficiais José Roberto Afonso, Martus Tavares, Guilherme Gomes Dias, Selene Nunes, Amaury Bier, entre outros. Cid Heráclito, jurista, cuidou dos aspectos legais. Na Câmara, Eugenio Greggiani se encarregou de coordenar os trabalhos da Comissão de Orçamento.

Colocado em audiência pública, o anteprojeto recebeu 5 mil propostas, além das sugeridas pelos parlamentares, que, surpreendentemente, tornaram a lei mais austera. Votada em 25 de janeiro de 2000, foi aprovada por 385 votos contra 86, estes dos partidos de oposição na época (PT, PC do B e PSB).

Sua sanção, em 4 de maio daquele ano, como lei complementar 101, interrompeu uma prática que já fazia parte das comemorações das festas de fim de ano: entre o Natal e o Ano Novo, o governo editava os pacotes de medidas com aumentos de impostos e cortes de gastos, o chamado "pacote fiscal", que iria viabilizar as contas do ano seguinte.

A LRF, que marcou o início de uma nova conduta dos prefeitos, governadores e presidentes da República, do Legislativo e do Judiciário no trato do dinheiro público, foi precedida da exaustão em série das finanças estaduais e da quebradeira dos bancos estaduais, que acabaram, em sua grande maioria, privatizados. Muito provavelmente, a crise financeira em que os Estados e seus bancos foram se envolvendo nos anos 1980 e 1990 serviu de incentivo para que a lei complementar 101 recebesse apoio da sociedade e do parlamento.

Alguns estudiosos das finanças públicas estabelecem relação entre a falência de quase todos os Estados, juntamente com seus bancos, e a democratização do país nos anos 1980, na medida em que o governo federal teria afrouxado os controles sobre os governadores eleitos. O uso dos bancos estaduais como financiadores das despesas, inclusive dos gastos com investimentos nos Estados, porém, começou a fazer parte da rotina dos governos durante a ditadura militar, como forma de contornar a centralização das receitas na União.

O péssimo manejo das instituições financeiras, pautado mais pelos interesses políticos do que pelas boas técnicas bancárias, comprometeu as finanças dos bancos estaduais na metade final dos anos 1980. Em 1987, o Banco Central cria um programa (Raet), pelo qual a autoridade monetaria assume a administração de bancos com problemas. Naquele momento, 28 instituições financeiras estaduais se submeteram à gestão do BC e três bancos de desenvolvimento foram liquidados.

Entre 1983 e 1991, segundo estudos do Banco Central, a União gastou R$ 61,5 bilhões com empréstimos e subsídios a essas instituições, que, mesmo assim, ainda apresentavam patrimônio líquido negativo.

A superinflação acobertava os problemas dos bancos e dos Tesouros estaduais, até que o Plano Real, de 1994, descerra a cortina. Sem a receita inflacionária, a vida dos administradores daqueles bancos, dos governadores e de prefeitos de grandes capitais ficava inviável.

Em 1995, o governo federal dá início a uma sequência de medidas que termina com ampla renegociação das dívidas estaduais por 30 anos, em troca de medidas de austeridade, com metas predefinidas, que os governos passam a ter que cumprir.

Ao final do processo de negociação, em 1998, o Tesouro Nacional tinha assumido R$ 101,9 bilhões de dívidas estaduais. Desses, R$ 77,5 bilhões foram refinanciados por até 30 anos, a uma taxa de juros real mínima de 6% ao ano. Outros R$ 11,4 bilhões seriam amortizados, pelos Estados, com as receitas de privatização de empresas estaduais que os governos se comprometiam a fazer; e R$ 13 bilhões corresponderam à diferença de encargos pela rolagem das dívidas entre a data de corte e a data de assinatura dos contratos (valores em reais constantes de 1998).

A Lei de Responsabilidade Fiscal encontra o caminho das finanças públicas estaduais e municipais pavimentado pelas renegociações de dívidas e as contas federais em processo de ajuste. Isso, porém, não reduziu sua importância, sobretudo em termos prudenciais.

Nos 75 artigos, a LRF impõe tetos nos gastos com pessoal nos três níveis de governo e nos três poderes; proíbe que bancos públicos financiem seus controladores e limita as possibilidades de endividamento dos Estados e municípios. A União, que também deveria estar sob tetos de endividamento, acabou se safando até hoje.

Uma década depois, está claro onde a lei funcionou e os flancos que ficaram abertos. Um dos princípios básicos da LRF - o de que novas despesas só podem ser criadas com receitas previamente definidas - nem sempre é respeitado. Os limites impostos para os gastos com pessoal nas três esferas de governo e nos três poderes têm se mostrado frouxos; e, depois de todo esse tempo, ainda há regulamentações por fazer, como a limitação do endividamento da União e a criação do Conselho de Gestão Fiscal.

A relevância da LRF foi eloquente, principalmente no equilíbrio das finanças dos governos subnacionais (ver tabela) e seu modelo serve de inspiração para outros países. Falhas são encontradas, mas a mais gritante diz respeito à não punição de quem ignora a lei.

No Congresso, discute-se agora o próximo "front" de ação: construir uma Lei de Responsabilidade Orçamentária. Um projeto de lei complementar com essa sugestão tramita no Senado. De autoria do senador Tasso Jereissati (PSDB-CE), a proposta está na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) e pretende, nos seus 138 artigos, imprimir mudança radical na forma como se faz e se conduz o orçamento no Executivo e no Legislativo. O senador Francisco Dornelles (PP-RJ), relator do projeto na CAE, já está conversando com o governo para elaborar seu parecer, que espera ser votado ainda este mês.

O ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, apoia a aprovação de uma nova legislação, que substitua a lei 4.320, que desde 1964 rege os orçamentos federal, estadual e municipal. Mas tem sérias críticas aos termos do projeto de lei em discussão. Principalmente, à ideia de se permitir a abertura para mudanças na renegociação das dívidas estaduais.

A discussão do modo como se conduz o orçamento no país é crucial. O processo é permeado por caminhos tortuosos, que deixam portas de toda sorte abertas para a corrupção. E a execução do orçamento, por ser meramente autorizativa, transformou-se num perverso mecanismo de barganha política.

Inoperância da Defensoria Pública causa problemas para a população

GAZETA DO POVO, 3 de maio de 2010

Defensoria Pública do Paraná não é formalizada, o que desrespeita a legislação. Inoperância do órgão causa problemas para a população


A empregada doméstica Vera Lucia de Car­valho, 44 anos, é uma vítima. Não da violência ou do trânsito, mas das filas de espera por um exame no Sistema Único de Saúde (SUS) e da Defensoria Pú­­blica do Paraná, que desrespeita a Cons­tituição Federal desde 1991. A inoperância dos órgãos custou muito mais caro do que se imaginam. Custa sua saúde e quase a sua vida. Após realizar exame de rotina, uma hemorragia vaginal passou a fazer parte da rotina de Vera. Havia necessidade de exame clínico, agendado para nove meses mais tarde, para entender o motivo do sangramento. Vera procurou a De­­fensoria Pública para agilizar o tratamento e ouviu que não poderia ser atendida. Seu corpo não esperou pelo exame e um câncer surgiu.

A primeira consulta para tratar a hemorragia aconteceu em julho de 2007. Desde então, passaram-se 17 meses até o diagnóstico, em janeiro de 2009. No período, ela correu a postos de saúde e hospitais para realizar o exame clínico. Só teve acesso a ele, porém, quando se dispôs a pagar R$ 100. O tempo de espera para a investigação mais profunda levaria de 9 meses a 1 ano em Colombo, na região metropolitana de Curitiba. Em uma tentativa frustrada, Vera Lucia tentou antecipar o tratamento por meio da Defensoria Pública, mas não obteve êxito. Um médico consultado pela reportagem afirmou que o tipo de câncer de Vera evolui rapidamente e poderia ser evitado com diagnóstico antecipado.

A paciente teria melhor sorte se estivesse no Rio de Janeiro. Na Defensoria fluminense, considerada exemplo no Brasil, muitos casos envolvendo o SUS não chegam à Justiça, pois são resolvidos na esfera administrativa. Ao procurar o órgão, o paciente sai, em geral, com o exame agendado. “Esse caso configura a falência de dois serviços estatais. Em muitas defensorias, basta um procedimento administrativo para resolver o problema”, esclarece André Castro, presidente da Associação Nacional dos Defensores Públicos (Anadep). Chefe da Defensoria Pública do Paraná, Josiane Fruet Bettini Lupion afirma que atualmente o órgão adota a mesma postura da Defensoria do Rio.

Depois de passar o ano de 2008 em tratamento (radioterapia e quimioterapia), hoje Vera Lúcia, está bem. Mas sabe dos riscos de um retorno da enfermidade e por isso toma os cuidados necessários. “Fiquei um ano parada, cheguei a pesar 40 kg (com 1,51 metro de altura) e sei que posso não ter muitos anos de vida”, diz, observando o neto correndo pela cozinha de casa.

Não só problemas gravíssimos, como o de Vera, foram abandonados pela Defensoria Pública desde 1991. Situações que causam transtornos no cotidiano também foram deixadas de lado. Em janeiro do ano passado, a professora de Matemática Marilsa Conceição Silva recebeu uma conta de telefone acima dos padrões costumeiros. “No mês da fatura, eu trabalhava o dia inteiro, meus filhos mais novos estavam no Rio de Janeiro e o filho mais velho também não ficava em casa”, conta. Ela tentou um acordo com a empresa, mas não houve conciliação. Chegou à Defensoria Pública esperançosa, mas encontrou as portas fechadas.

“Disseram que não tinham condições de me atender, que havia muita gente”, relata. Enquanto tentava solucionar os entraves com a empresa de telefonia, Marilsa discutia questões com o banco Itaú e pretendia receber o apoio do órgão nesse caso. “Eu me senti péssima com isso, como todo bom brasileiro. Você paga um monte de coisa e dizem que temos um monte de direitos. Mas nada funciona na prática”, critica. Carioca, a professora compara o atendimento da Defensoria Pública paranaense e da fluminense. “É totalmente diferente. Lá ela funciona para todo mundo, ao contrário daqui. Nem chegaram a me atender”, diz.

Nas duas situações, Vera Lucia e Marilsa procuraram a Organização Jurídica de Apoio ao Cidadão (Ojac), uma das várias instituições que buscam suprir a lacuna da Defensoria no estado nos últimos 18 anos, assim como os Núcleos de Prática Jurídica de universidades. Há três anos em funcionamento, a Ojac defende aproximadamente 80 casos que deveriam receber atenção da Defensoria Pública. “São problemas, muitas vezes sérios, aos quais ninguém dá a devida atenção”, afirma Solange Aparecida de Souza, presidente da Ojac.

Outro lado
Josiane Fruet afirma que, em ambos os casos, a Defensoria Pública poderia ter agido. Senão para solucionar a situação, ao menos para encaminhar para instituições responsáveis por ocorrências semelhantes (a Pro­curadoria de Defesa do Con­sumidor, no caso de Marilsa). A fim de impedir problemas semelhantes, a chefe da Defen­soria afirma ter instituído uma nova forma de atendimento. “A triagem liga diretamente para mim, pois esse tipo de problema sempre cai em meu gabinete”, conta. Josiane assumiu a chefia do órgão em fevereiro de 2009, depois da procura de Marilsa e Vera Lucia.

"Recall" de políticos

RUY CASTRO, FOLHA DE S. PAULO, 3 de maio de 2010


Uma montadora de carros no Brasil mandará recolher mais de 100 mil veículos de um modelo fabricado por ela, de abril de 2008 até hoje, por causa de um problema na presilha que fixa o tapete do motorista no assoalho do carro. O tapete estaria sujeito a deslizar e travar o acelerador, provocando aceleração repentina e involuntária do carro e o tornando sujeito a graves acidentes, como já aconteceu.

O nome disto é "recall -chamar de volta, revogar, anular-, e não acontece porque a empresa é boazinha, mas porque foi pressionada por denúncias de consumidores ao Procon e ao Ministério da Justiça. Dá a impressão de que o cidadão agora é ouvido e tem seus direitos respeitados, ao contrário do passado, em que, se algum produto se escangalhasse com facilidade, o comprador que se queixasse ao bispo, o qual tinha mais o que fazer.

Esse conceito poderia se alargar e se aplicar também aos políticos. Quando o eleitor sentisse que seu representante tivesse se esquecido dos compromissos de campanha pelos quais fora eleito, deveria poder revogar seu próprio voto, anulando-o. Se isso fosse feito em número suficiente, o político seria obrigado a devolver o cargo ou o mandato.

Você dirá que as eleições são para isso mesmo, e nada impede o eleitor de negar o seu voto ao político no pleito seguinte, ajudando a derrotá-lo. Mas não sejamos ingênuos. Uma vez no controle da máquina, os políticos tendem a se reeleger e a se eternizar na carreira, submetendo-se apenas a uma dança de cadeiras no Congresso, nos ministérios e nos vários níveis da administração.

Tendo elegido os bichos uma vez, nunca mais conseguimos nos livrar deles. Os partidos, em vez de promover rigorosos "recalls" periódicos, preferem varrer seus podres para debaixo do tapete.

Queda do FPM prejudica até os funcionários das prefeituras

O DIÁRIO DE MARINGÁ, 2 de maio de 2010\

A queda nos repasses do Fundo de Participação dos Municípios (FPM), feitos três vezes por mês pelo governo federal, colocou as prefeituras dos municípios menores em dificuldade, a ponto de algumas delas paralisarem obras e até dispensar prestadores de serviço.

Prefeitos dizem que confiaram no governo federal, que garantiu que neste ano os valores dos repasses voltariam a aumentar, passada a crise econômica que atingiu todo o mundo no ano passado.

“Ao invés de acontecer uma elevação, a situação piorou”, diz o prefeito de Munhoz de Mello (a 44 quilômetros de Maringá), Gilmar José Benkendorf Silva (PMDB), que durante o ano passado fez vários questionamentos ao governo na condição de presidente da Associação dos Municípios do Setentrião Paranaense (Amusep).

“Tivemos em 2010 o pior janeiro da história, com repasses 5% menores do que em 2009, que era o ano da crise”, diz. “O governo tinha a previsão de que nos primeiros meses haveria um aumento em torno de 30%, mas mal chegou a 13%”.

A prefeitura de Paiçandu sentiu ainda mais a queda dos repasses do FPM. De acordo com o prefeito Vladimir da Silva, o Vladão (PMDB), a receita do município é baixa e a administração depende do FPM até para cobrir a folha de pagamento.

As perdas do município, em relação ao que era antes da crise mundial, já somam cerca de R$ 2 milhões e atingiram até os funcionários da prefeitura. Segundo o prefeito, não foi possível dar o aumento solicitado pelos funcionários e até os aposentados que continuavam trabalhando na prefeitura foram dispensados até que a situação melhore.

Outras prefeituras da região também foram afetadas na realização de pequenas obras, programas sociais e folha de pagamento e os prefeitos querem que seus representantes, como Amusep, Associação dos Municípios do Paraná e Confederação Nacional dos Municípios (CNM) cobrem do governo a regularização dos repasses.

“É difícil entender uma queda como essa diante das constantes notícias de que a economia brasileira está vivendo um de seus melhores momentos”, diz Vladão. Além disso, segundo ele, a decantada crise econômica terminou há quase um ano.

Paraná é o estado que mais vacinou contra a gripe A

BEM PARANÁ, 3 de maio de 2010

Estado já vacinou cerca de 3,3 milhões de pessoas e ultrapassou a meta fixada pelo Ministério da Saúde


O Paraná vem mantendo a posição de estado que mais vacinou contra a influenza A (HIN1) - gripe suína desde o início da campanha de imunização. Até a manhã desta segunda-feira, cerca de 3,3 milhões de pessoas haviam sido imunizadas, o que corresponde a uma cobertura de 66%.

O estado já ultrapassou a meta fixada pelo Ministério da Saúde na vacinação dos profissionais da área de saúde, da população indígena, das crianças de seis meses a dois anos e de doentes crônicos.

Até sexta-feira (7), a expectativa é vacinar 1,8 milhão de adultos jovens de 20 a 29 anos. A cobertura nesse grupo já atingiu 78%. Cerca de 72% das gestantes foram vacinadas, o que representa aproximadamente 103 mil pessoas.

“O índice de cobertura em todos os grupos supera outros estados porque aqui a população está mais sensibilizada em relação à doença, a maioria das pessoas tem um parente ou amigo que lidou com a nova gripe no ano passado. O Paraná foi o estado com o maior registro de casos confirmados - cerca de 60 mil - e 288 mortes”, disse à Agência Brasil o superintendente de Vigilância em Saúde, José Lúcio dos Santos.

O último boletim relativo a 2010, divulgado pela Secretaria da Saúde no dia 27 de abril, mostra 951 casos confirmados da doença e dez mortes. José Lúcio afirmou que se for levada em conta a campanha de vacinação e as várias pessoas que tiveram contato com o vírus no ano passado, e que portanto estão imunizadas (cerca de 1 milhão de paranaenses), o número de casos de gripe suína este ano no estado deverá ser muito baixo.

“Mas insistimos que o vírus continua circulando e todos os cuidados básicos devem ser mantidos, como lavar as mãos frequentemente com água e sabão, evitar tocar os olhos, boca e nariz após contato com superfícies, não compartilhar objetos de uso pessoal, evitar aglomerações e manter os ambientes arejados”, recomendou o superintendente. Ele lembrou que a doença passou a ser considerada um sério problema de saúde publica.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Os ônus a cargo de quem os gera

WASHINGTON NOVAES, O ESTADO DE S. PAULO, 30 de abril de 2010


Merece ser acompanhado com atenção o projeto de lei enviado pela Prefeitura paulistana à Câmara de Vereadores, que autoriza cobrar de novos empreendimentos comerciais e condomínios residenciais até 5% de seu valor, para financiar melhorias no sistema residencial da área circundante, que será afetada pelo adensamento humano (Estado, 16/4). É uma iniciativa na direção contrária à prática generalizada de transferir para o poder público e para a sociedade os ônus de qualquer empreendimento, enquanto as vantagens se circunscrevem a poucas pessoas ou grupos. A "privatização do lucro e socialização do prejuízo", no dizer do falecido ministro Roberto Campos (que nem por isso deixou de privatizar tantos lucros).

Mas o fato é que, segundo o noticiário deste jornal, será possível, pelo caminho proposto, cobrar até 5% do valor da obra para melhorias no sistema viário, que será afetado pela maior densidade populacional ou de usuários. O exemplo dado é de um shopping center no valor de R$ 300 milhões que, aprovado o projeto, terá de aplicar R$ 15 milhões em iniciativas que "amenizem o impacto no entorno". Ou um condomínio que tenha 50 vagas nas garagens. Já um pequeno empreendimento teria de contribuir, por exemplo, para implantar faixas de pedestres. O exemplo mencionado de área afetada pelo aumento da ocupação sem nenhuma compensação é o da Avenida Francisco Matarazzo, onde em uma década foram implantadas 17 torres residenciais, um hipermercado, duas casas noturnas e uma universidade para 20 mil alunos sem exigência de contrapartida.

Estudo da Agência Nacional de Águas mostra
que 1.896 dos 2.965 municípios por ela pesquisados
sofrerão com falta de água nestes próximos seis anos




É uma visão que precisa ser estendida a qualquer empreendimento na área urbana, para que cesse a transferência de ônus para o poder público e para a sociedade. Em um novo loteamento nas cidades brasileiras, por exemplo, a regra é que o incorporador imobiliário apenas demarque os lotes e os entregue aos usuários frequentemente até sem redes de esgotos, de drenagem e pavimentação. Nesses lugares, caberá ao poder público com o dinheiro proveniente dos impostos pagos por todos os cidadãos, não beneficiários da iniciativa implantar tudo o que falta: rede de energia, transporte, saneamento, drenagem, equipamentos de saúde, educação, segurança, lazer, etc. Isso também ocorre onde há aumento da densidade populacional. É ainda o caso em que se permitiu a implantação de habitações em áreas de risco como nos 30 lugares de São Paulo onde há residências construídas em áreas de antigos aterros de lixo (Folha de S.Paulo, 15/4), que desde 2007 estão para ser retiradas e agora exigem urgência.

E tudo isso acontece no momento em que faltam recursos para atender às necessidades mais elementares da população, principalmente das faixas mais pobres. É o caso, por exemplo, da área do saneamento, em que continuamos com metade dos brasileiros morando em casas sem ligação com as redes de esgotos. Ou os quase 10% sem água tratada em suas residências. E com a própria Secretaria Nacional de Saneamento admitindo (Estado, 16/3) que levaremos pelo menos uma década para universalizar o atendimento nessa área e, ainda assim, se o poder público conseguir destinar R$ 20 bilhões por ano para o saneamento do que estamos longe. Mas nesse passo continuaremos tendo milhões de brasileiros a engrossar a assustadora estatística da Organização Mundial da Saúde (OMS) e do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) de que há perto de 1 bilhão de pessoas sem saneamento em suas residências. E outras tantas que defecam ao ar livre.

Nesse quadro, também é muito importante a notícia que o autor destas linhas recebeu numa discussão sobre o setor no Recife, há poucos dias, de que o BNDES já está financiando projetos para reparação, conservação e manutenção de redes urbanas de água. Não é novidade que as redes de abastecimento das maiores cidades brasileiras perdem mais de 40% da água que sai das estações de tratamento por causa de rompimentos, vazamentos e furos até mesmo furtos. E até há pouco não havia, em nenhuma instituição, financiamentos para projetos de reparo e manutenção das redes, embora se saiba que custa de cinco a sete vezes menos recuperar um litro de água do que produzir um litro "novo", com a implantação de novas barragens, novas adutoras e novas estações de tratamento estas, produto da visão de administradores que só dão valor a grandes obras acima do solo, bem visíveis, fáceis de serem exibidas em campanhas eleitorais. E fazendo a delícia das construtoras.

A cidade de São Paulo é das poucas que nos últimos anos conseguiu reduzir as perdas de água, inclusive com o uso de tecnologia japonesa que permite detectar os locais de vazamento sem ter de romper o asfalto em toda parte. Antes, também tivera bons resultados reduzindo a pressão nas redes de água nas áreas onde havia indicação de vazamentos.

Esse tema fica ainda mais importante quando se lembra estudo da Agência Nacional de Águas, mostrando que 1.896 dos 2.965 municípios por ela pesquisados sofrerão com falta de água nestes próximos seis anos. Pode ser também o caso da própria capital paulista, que já tem dificuldade de continuar abastecida em grande parte pela água da bacia do Piracicaba/Capivari/Jundiaí, disputada pelos municípios da região de origem. E buscar água em outras bacias como no Vale do Ribeira exigirá investimentos e preço muito altos para os usuários que terão de incluir a energia para fazer a água captada subir centenas de metros.

Enfim, já passou da hora de, em qualquer empreendimento, fazer todas as contas e atribuir os ônus a quem os gera ou deles se beneficia. Na área urbana, em qualquer ocupação, é preciso exigir também a manutenção de área permeável para infiltração de água; sistemas de eficiência energética; descargas sanitárias com menor uso de água; retenção de água de chuva (contribuindo para evitar inundações) e reúso posterior. Tudo o que ajude a enfrentar os novos tempos de escassez de recursos. E os dramas climáticos.