quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Sem intervalo

O GLOBO, Merval Pereira, 6 de agosto de 2010


Há duas informações contraditórias no noticiário sobre a campanha do segundo turno da candidata Dilma Rousseff: ou bem o tom "Paz e amor" vai prevalecer ou bem o deputado Ciro Gomes vai fazer parte da coordenação política da campanha. As duas coisas não combinam.

O mais provável é que nenhuma das duas aconteça. A maioria dos governadores quer que Lula participe da campanha, mas tire o dedo do gatilho da metralhadora giratória, onde ele o repousou no último mês de campanha.

Querem a volta da criação imortal de Duda Mendonça, que levou Lula à Presidência da República e à qual ele retorna sempre que vê escapando uma vitória pressentida ou que se mete em uma enrascada pelo rancor que guarda no peito.

Apesar de todas as glórias, locais e internacionais, Lula não se sente confortável neste mundo que não lhe dá uma aprovação unânime.

Talvez seja o caso para um psicanalista, mas o fato é que ele não se contenta com menos do que a unanimidade burra identificada por Nelson Rodrigues.

Foi assim também em 2006, quando foi para o segundo turno contra o tucano Geraldo Alckmin. Ficou nada menos que 15 horas desaparecido, curtindo sua mágoa, imprecando contra os seus "aloprados" e também contra o "picolé de chuchu" que ousou enfrentá-lo quase de igual para igual.

Quando se acalmou, reassumiu o papel de "Lulinha Paz e Amor" e fez uma campanha de segundo turno irretocável, colocando no corner seu adversário.

É claro que Dilma não é Lula, e Serra não é Alckmin, e o país é outro hoje em dia. Ficará mais difícil levar a campanha do segundo turno para o campo ideológico, como querem alguns dentro da campanha.

A polêmica sobre o aborto, que retirou de Dilma boa parcela de votos, é uma demonstração de que a nova classe média criada no governo Lula, conservadora como já havia registrado o cientista político André Singer, ex-porta-voz de Lula, não gosta de marolas.

O interessante é que Mangabeira Unger, o professor de Harvard que já foi ministro do governo Lula e foi o estopim para a saída de Marina Silva do Ministério, ao receber de Lula e Dilma a incumbência de cuidar das questões ambientais na Amazônia com um olhar desenvolvimentista, desenvolveu a tese de que os evangélicos brasileiros tinham semelhança com os pioneiros que fundaram os Estados Unidos e tinham o espírito empreendedor que faria a diferença para o desenvolvimento do Brasil.

Esse grupo, e mais os católicos, ao que tudo indica reagiu contra posições ambíguas da candidata Dilma sobre a legalização do aborto, e o debate continua pela internet.

Outras contradições da candidata oficial serão exploradas durante este segundo turno da campanha. Mas uma coisa é inegável: mais uma vez a campanha do PT saiu na frente em organização.

Um exemplo claro disso foi o aproveitamento que Dilma Rousseff fez do bloco de reportagens do programa "Fantástico", da Rede Globo, marcando seu pronunciamento para um horário em que pôde entrar ao vivo na maior audiência do domingo.

O candidato Serra simplesmente não foi encontrado e só foi fazer seu pronunciamento perto da meia-noite.

Outra demonstração de organização foi a convocação dos governadores eleitos e demais aliados para uma reunião em Brasília, já levando em consideração os programas eleitorais do segundo turno, que começam na sexta-feira.

Serra só reunirá seus aliados hoje.

Uma coisa houve de bom para a campanha de Serra. Ele não repetiu o erro de Alckmin, que suspendeu a campanha entre o primeiro e o segundo turno por uma semana, freando todo o embalo que o levou a ter 42% dos votos no primeiro turno.

E, em vez de receber o apoio de Garotinho em primeiro lugar, como fez Alckmin em 2006, Serra desta vez recebeu o apoio de Fernando Gabeira, o que faz toda a diferença.

As duas campanhas estão se movimentando nos bastidores para conseguir o apoio de Marina Silva e de seu Partido Verde, e a missão é tão importante que os principais líderes do PT e do PSDB estão capitaneando os esforços de aproximação.

O presidente Lula e seu principal adversário, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, estão mais uma vez disputando esse lance político, numa demonstração de que a candidatura de Marina Silva teve o condão de quebrar a polarização entre os dois partidos.

Embora sejam eles que disputam o segundo turno, o protagonismo está com Marina Silva, mais do que com o Partido Verde.

Ninguém sabe exatamente a composição desses quase 20 milhões de brasileiros que escolheram Marina mesmo sabendo que ela não tinha chance de chegar ao segundo turno.

Foram eleitores que quiseram demonstrar sua insatisfação com a dualidade proposta, como sempre Marina salientou nos debates.

Como terão que decidir quem escolher no segundo turno, não é provável que aguardem uma orientação de Marina, nem que ela pretenda ser a guia genial desses eleitores.

As motivações do voto em Marina parecem ser bastante variadas, e cada grupo escolherá o candidato(a) que sobrou, ou escolherá não escolher, de maneira mais independente do que normalmente acontece.

Os petistas desiludidos provavelmente voltarão ao seio do partido, mas eles ao que tudo indica são a menor parte desse contingente, que, também pelas primeiras análises, não é nada parecido com os eleitores que em 2006 escolheram Cristovam Buarque e Heloisa Helena no primeiro turno e depois desembarcaram na candidatura de Lula em peso.

Os eleitores de Marina parecem ser menos ideológicos, assim como ela. Compromissos com uma visão mais abrangente da questão do meio ambiente dentro do projeto de desenvolvimento do país devem ser mais eficazes para uma boa parte desses eleitores.

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