terça-feira, 21 de setembro de 2010

Justiça Federal decreta intervenção do Ciap, de Londrina

JORNAL DE LONDRINA, 21 de setembro de 2010

Pedido de intervenção foi feito pelo MPF. O caso corre em segredo de Justiça. Intervenção está sendo concretizada nesta terça-feira


Depois de ser alvo de uma mega operação da Polícia Federal (PF), estar em processo de rescisão contratual com a prefeitura de Londrina e atrasar o pagamento de salários e benefícios dos funcionários, o Centro Integrado de Apoio Profissional (Ciap) receberá um interventor judicial. A informação foi confirmada nesta terça-feira (21), pela assessoria de imprensa do Ministério Público Federal (MPF) do Paraná.

O pedido de intervenção foi feito pelo MPF na 2ª Vara Federal em Curitiba, pelo procurador Elton Venturi. Enquanto o processo cível prossegue, uma liminar foi concedida pela Justiça Federal, autorizando a nomeação de um interventor. O processo corre em segredo de Justiça. Segundo o MPF, a intervenção está sendo concretizada nesta terça-feira (21).

A reportagem esteve em contato com o advogado do Ciap, João Gomes, que prometeu dar explicações ainda nesta terça-feira. Entretanto, ele disse que estava se inteirando da situação. O celular dele estava desligado por volta das 19h30.

Desvios - O Ciap é umaentidade suspeita de um desvio milionário de recursos públicos, que pode chegar a R$ 300 milhões, segundo a PF. O imbróglio é resultado da Operação Parceria, realizada no início de maio, que resultou na prisão de 12 pessoas, entre elas, o coordenador e proprietário do Ciap, Dinocarme Aparecido Lima. De acordo com o MPF, os envolvidos foram denunciados por formação de quadrilha, peculato e lavagem de dinheiro.

Movimento Nossa São Paulo cogita acionar o MP para implementar plano de mobilidade

AGÊNCIA BRASIL, 21 de setembro de 2010


O coordenador da Secretaria Executiva do Movimento Nossa São Paulo, Maurício Broinizi, afirmou nesta segunda-feira (20/9) que espera que os governos municipal e estadual comprometam-se na implementação do plano de mobilidade urbana de São Paulo elaborado pela organização não governamental (ONG). Entretanto, Broinizi afirmou que vai acionar o Ministério Público caso os governos não abram o debate da proposta para o transporte da capital.

“Espero que tenhamos uma resposta”, disse ele, após a apresentação do projeto na Câmara Municipal. “Se eles ignorarem, vou procurar o Ministério Público para exigir uma atitude.”

Segundo Broinizi, o plano diretor da cidade, em vigor desde 2002, já previa a estruturação de um projeto de mobilidade para São Paulo. Este projeto, porém, nunca feito. “Temos um plano diretor manco no que diz respeito a transporte”, complementou Broinizi.

Ele afirmou ainda que a falta de planejamento deve-se, em boa parte, ao desinteresse do governo em discutir a questão. Na apresentação do plano, por exemplo, o secretário executivo do Comitê Municipal de Mudanças Climáticas, Volf Steinbaum, foi o único representante da prefeitura presente. Nenhum representante do governo estadual compareceu.

Broinizi espera que os secretários de Transportes compareceram esta noite à Câmara Municipal, na sessão que retomará o debate das propostas do plano de mobilidade apresentado pela ONG.

Eles tentam a reeleição, nós pagamos a conta

O GLOBO, Gil Castello Branco, 21 de setembro de 2010


Há dois meses, o Congresso Nacional é um deserto. Como 524 parlamentares, entre deputados e senadores, estão em campanha para assumir cargos no Legislativo ou no Executivo, praticamente não há sessões, audiências públicas, trabalhos de comissões ou votação de qualquer projeto.

Alguns gabinetes estão fechados, enquanto outros funcionam a meia-boca. Os políticos vivem o ritmo frenético das eleições e nem tão cedo aparecerão em Brasília. Apesar do marasmo no Legislativo, os parlamentares continuam recebendo normalmente os seus salários e benefícios.

Na Câmara dos Deputados, por exemplo, existe a cota para o exercício da atividade parlamentar, apelidada de cotão. Com essa verba os deputados pagam passagens aéreas, telefones, correios, manutenção de escritórios (condomínio, energia elétrica, acesso à internet, TV a cabo etc.), alimentação, combustíveis, entre outros itens. O valor do cotão varia conforme as diferenças de preços das passagens aéreas entre os estados e o Distrito Federal.

Mesmo sem ir à capital, os deputados federais gastaram com essa verba mais de R$ 6 milhões, entre agosto e a primeira quinzena de setembro. A locação de veículos automotores e embarcações custou R$ 1 milhão. Os serviços de consultorias consumiram quase outro milhão. Com telefonia, foi R$ 1,5 milhão. Apenas os deputados do Estado do Rio de Janeiro pagaram cerca de R$ 46 mil em combustíveis e lubrificantes, o que corresponde a quase 18 mil litros de gasolina.

Com o dinheiro da Câmara são contratados escritórios de advocacia, institutos de pesquisas e agências de comunicação e marketing. Os deputados são capazes de jurar que essas despesas nada têm a ver com as suas campanhas, mas ninguém fiscaliza com rigor esses serviços, supostamente prestados por conta do mandato.

A transparência dos gastos é precária. No site da Câmara são informados apenas os valores pagos e os nomes das empresas beneficiadas. As notas fiscais não são divulgadas. Assim, localizar os endereços e os telefones dos fornecedores, bem como o que foi efetivamente realizado, é uma odisseia.

Em outros países, a transparência é muito maior. Na Casa dos Comuns do Reino Unido, os documentos relativos à verba indenizatória dos 650 membros especificam, claramente, o que foi contratado. Sem qualquer dificuldade, pode-se descobrir que a deputada Diane Abbott imprimiu cerca de 200 cartões de visita, na cor verde, ao custo de 219 euros, ou que o ex-primeiro-ministro britânico Gordon Brown pagou 25 euros para limpar a janela, por dentro e por fora.

Os jornais concorrentes The Guardian e The Telegraph divulgam as despesas em seus sites, convidando os eleitores a destrinchar as prestações de contas, a fim de encontrar eventuais ilegalidades. Existem, inclusive, áreas específicas nos portais com as melhores descobertas dos cidadãos e os reembolsos ilegais ou exagerados aos políticos.

Por aqui, a legislação da Câmara sobre o uso do cotão é, no mínimo, curiosa. A Casa fiscaliza os gastos apenas quanto à regularidade fiscal e contábil da documentação, mas cabe exclusivamente ao deputado responsabilizarse pela compatibilidade legal do gasto. Algo como se as raposas tomassem conta dos galinheiros.

Considerando que as despesas com o exercício do mandato se confundem com as de campanha, fica no ar a dúvida se os recursos estão sendo utilizados em favor do interesse público ou pessoal.

É claro que além do cotão, outros direitos dos parlamentares em recesso poderiam ser questionados. A começar pelos salários. Ainda que possa parecer um sonho, 17 deputados estaduais do Paraná, na semana passada, abriram mão da remuneração nos dias parados, durante o chamado recesso branco. A bem da verdade, não tomaram essa decisão por reflexão ainda que tardia sobre a moralidade administrativa.

Agiram, sim, pressionados pela mídia e pelos eleitores, após amplo debate nos veículos de comunicação do estado. O fato pode não ter significativo impacto econômico, mas é relevante sob o ponto de vista ético. Até porque nem todos os candidatos gozam da vantagem de receber vencimentos e cotas sem trabalhar no período pré-eleitoral.

É pouco provável que os deputados e senadores estejam dispostos a alterar a prática atual, legislando contra a causa própria. A esperança é que, a exemplo do Ficha Limpa, a sociedade, cada vez mais consciente, decida o óbvio: só devem receber salários os que trabalham.

Gil Castello Branco é economista e fundador da organização não-governamental Associação Contas Abertas.


O lento avanço da educação

O ESTADO DE S. PAULO, 21 de setembro de 2010


Embora a educação tenha melhorado nos últimos dez anos, o ritmo do avanço é tão lento que o Brasil continua perdendo a corrida educacional até para países mais atrasados da América do Sul. Essa é uma das conclusões que se podem extrair da Síntese de Indicadores Sociais de 2010, que o IBGE divulgou no final da semana passada.

A proporção da força de trabalho de 18 a 24 anos que concluiu o ensino médio ou ingressou no ensino superior, por exemplo, quase dobrou nos últimos dez anos. Esse é um dado positivo. Mas, em 2009, 32,8% dos brasileiros nessa faixa etária haviam abandonado os estudos antes de completar a terceira série do ensino médio. A taxa de evasão do ensino médio foi de 10% - ante 7% na Argentina, 6,8% no Uruguai, 2,9% no Chile e 2,3% no Paraguai.

Segundo o IBGE, praticamente todas as crianças de 6 a 14 anos frequentavam a escola em 2009. Esse também é um dado auspicioso. A universalização da oferta de matrículas no ensino fundamental foi obtida na década de 1990. Mas, devido ao ingresso tardio na escola e às reprovações, parte significativa dos estudantes não está no nível adequado à idade.

Por causa da má qualidade do ensino, o desempenho dos estudantes desse nível de ensino continua insatisfatório principalmente em matemática, ciências naturais e português. Muitos alunos não conseguem compreender um texto simples ou resolver problemas elementares. Segundo os especialistas, a diferença de conhecimento entre os alunos da 8.ª série do ensino fundamental e os da 3.ª série do ensino médio é muito pequena.

Esse é um dos fatores que têm estimulado muitos jovens a abandonar os estudos após completar 15 anos. Por isso, a escolaridade média da população brasileira com idade até 25 anos é de apenas 5,8 anos - contra 12 anos na Coreia do Sul, 13,3 anos em Taiwan e 13,4 nos EUA. Sem a formação necessária, esses jovens não se qualificam profissionalmente, sendo condenados ao subemprego. Com isso, o Brasil não forma o capital humano de que necessita para crescer. "O crescimento econômico exige maiores índices de educação e de qualificação dos jovens", diz a coordenadora da pesquisa do IBGE, Ana Lúcia Saboia.

A situação é mais grave nas áreas menos desenvolvidas. Em 2009, no Nordeste, 39,2% de jovens de 15 a 17 anos estavam matriculados no ensino médio e, no Norte, 39,1%. No Sudeste, a região mais rica, a taxa é de 60,5% - e há dez anos já era superior a 42,1%.

No ensino superior, a Síntese de Indicadores Sociais de 2010 mostra o êxito dos programas governamentais de fomento e apoio, como o ProUni. Entre 1999 e 2009, dobrou o acesso à universidade das pessoas com mais de 25 anos que se declaram negras. Eram 2,3%, há dez anos, e 4,7%, no ano passado.

O levantamento também mostra que os programas de transferência de renda, como o Bolsa-Família, ganharam forte importância no orçamento das famílias mais pobres. Nas famílias com renda per capita de até um quarto do salário mínimo, o peso das "outras fontes", como são cadastrados esses programas, aumentou de 4,4%, em 1999, para 28%, em 2009.

Além disso, segundo o levantamento, cerca de 5 milhões de crianças entre um dia de vida e 14 anos - o equivalente a 10,9% do total nessa faixa etária - vivem em situação de risco, ou seja, em residências sem água tratada, sem rede de esgoto geral e sem coleta de lixo. O estudo mostra ainda que 39,4% dos alunos da rede de educação básica estudam em escolas sem esgoto e 10%, em colégios sem água potável. A situação mais crítica está no Nordeste, onde 19,2% das crianças não têm acesso a serviços básicos.

Embora decepcionantes, os números do IBGE não causam surpresa. Eles apenas reafirmam que o Brasil continua precisando de uma reforma radical no sistema de ensino, seja para reter os estudantes nas escolas, seja para melhorar a qualidade da educação. Apesar dos lentos avanços obtidos na última década, a formação dos estudantes brasileiros continua aquém de qualquer resultado aceitável.

Um pleito sub judice, se nada for decidido sobre Ficha Limpa

VALOR ECONÔMICO, 21 de sstembro de 2010


O Supremo Tribunal Federal (STF) deve decidir amanhã se a chamada Lei Ficha Limpa, que torna inelegíveis os condenados por decisões colegiadas (a partir de segunda instância), vale para essas eleições. Mas são tantas as questões que envolvem a decisão que o país corre o risco de ir para as urnas, em 3 de outubro, sem saber se os candidatos impugnados pelos TREs e pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) são elegíveis. Os eleitores têm chances de escolher candidatos sem saber se as postulações deles são legítimas, e correm o risco de escolher mandatários com candidaturas sub judice e, depois da posse, ver os seus mandatos cassados, se o STF não se pronunciar claramente sobre a constitucionalidade da lei, aprovada há dois meses pelo Congresso.

No STF, o ministro Gilmar Mendes foi o primeiro a suspender uma inelegibilidade decidida pelo TSE, a do senador Heráclito Fortes (DEM-PI). Dias Toffoli fez o mesmo com a candidata a deputada estadual Isaura Lemos (PDT-GO), argumentando que era preciso analisar a constitucionalidade da lei. Em compensação, o ministro Carlos Britto negou quatro pedidos de liminar de candidatos cujos registros foram negados e os ministros Ricardo Lewandowski e Carmen Lúcia tendem também a acatar a vigência imediata da lei.

O julgamento, pelo STF, do recurso de Joaquim Roriz, que teve sua candidatura impugnada pelo TRE do DF e pelo TSE, pode ao menos dar uniformidade às decisões judiciais em relação às mudanças feitas na Lei de Inelegibilidades. O Legislativo decidiu, acatando emenda popular, que são inelegíveis os condenados por colegiados e aqueles que renunciaram ao mandato parlamentar para evitar a cassação pelos seus pares. Roriz se encaixa nessa segunda hipótese. O ex-governador foi eleito senador em 2006 e renunciou, em 2007, para não ser cassado pelo plenário do Senado por acusação de ter recebido propina em seu governo no DF.

Várias questões jurídicas em torno da Lei Ficha Limpa levam a uma aposta no caos. Este será o pleito em que sobrarão candidaturas sub judices, que poderão resultar em cassação de mandatos, na hipótese desses candidatos se elegerem. Se o STF não der um norte para a definição judicial sobre as impugnações resultantes da Lei Ficha Limpa, a Justiça manterá mandatos instáveis e acumulará um sem número de questões a serem decididas depois do pleito. Se o candidato Joaquim Roriz for liberado para a disputa e se eleger governador do DF, e a Justiça decidir de forma terminativa sobre a legitimidade de seu mandato apenas depois de sua posse e ele for cassado, por exemplo, antes disso terão sido gerados atos administrativos de legitimidade duvidosa. E os votos em plenário dos parlamentares eleitos, mas que ficarão pendentes de uma decisão final da Justiça?

São questões complexas, mas cabe ao STF reduzir a instabilidade jurídica ao mínimo. De alguma forma, o Supremo terá que responder a duas questões importantes que pairam sobre a lei desde que ela foi aprovada. Primeiro, se a aplicação não teria que obedecer o princípio da anualidade - segundo a Constituição, leis que possam alterar o resultado do pleito têm que ser aprovadas no mínimo um ano antes das eleições. A outra questão é relativa à presunção de inocência. O texto constitucional define que ninguém pode ser considerado culpado sem sentença transitada em julgado, isto é, sem que tenha sido condenado em última instância. Existe ainda uma outra decisão a ser tomada: se a lei pode retroagir para prejudicar candidatos, ou seja, se os condenados antes da Lei Ficha Limpa estão submetidos aos seus rigores, ou à lei que vigia na época da condenação.

Não são decisões fáceis e o STF está muito dividido. Os especialistas têm apostado em empate, mesmo com o voto de minerva do presidente, já que o tribunal está com um ministro a menos - Eros Grau aposentou-se e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva vai nomear um substituto só depois das eleições. As dúvidas jurídicas se estendem ao próprio procedimento de votação no plenário do STF. Com o voto do presidente, Cezar Peluso, imagina-se um empate de cinco a cinco. O regulamento dá o poder de desempate ao presidente - neste caso, ele teria que votar duas vezes. Mas o regulamento não define se são necessários seis votos, ou o apoio de seis membros do STF, para tomar uma decisão. Se o ranking dos especialistas se realizar, qualquer decisão será tomada por seis votos e cinco membros do STF. É um imbróglio completo, que pode ir além da posse dos eleitos.

AMB divulga pesquisa que traça o perfil do eleitor

AMB, 21 de setembro de 2010


A Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB) divulgou, nesta terça-feira (21), pesquisa realizada pelo Ibope que traça um perfil do eleitor brasileiro. Dados importantes foram revelados pelo estudo como o que mostra que 85% dos brasileiros são favoráveis à Lei da Ficha Limpa. A norma, que veta a candidatura de políticos condenados por um colegiado de juízes, terá sua validade analisada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) amanhã (22).

A pesquisa faz parte da campanha Eleições Limpas – Não Vendo meu Voto, lançada pela AMB com o apoio do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), e que tem como objetivo conscientizar os eleitores sobre a importância do voto e de seu papel na fiscalização das eleições. O presidente da AMB, Mozart Valadares Pires, afirmou que uma eventual decisão contrária à Ficha Limpa no STF poderá gerar uma “frustração nacional”.

“Não poderemos desconhecer que isso [a derrubada da lei pelo STF] será uma frustração nacional, caso essa lei desapareça através de uma decisão judicial. Ninguém aqui terá outro sentimento a não ser o sentimento de frustração”, destacou. “A Ficha Limpa veio para atacar a questão da impunidade e os números mostram quantas candidaturas já foram barradas em virtude dessa iniciativa”, acrescentou o presidente da Associação.

Mozart comentou diversos outros pontos do estudo, inclusive a compra de votos, que foi analisada pela pesquisa. Em entrevista, recomendou aos eleitores que procurem a comarca ou juiz eleitoral de sua cidade, a Polícia Federal ou a Polícia Civil para denunciar a prática, ainda recorrente em nosso país. “Os números mostram que há uma cumplicidade entre o corruptor e o corrupto, no caso o que compra e o que aceita vender seu voto. Temos que combater essa prática”, alertou.

Números - O levantamento ocorreu entre 18 e 21 de agosto. O Ibope entrevistou 2.002 eleitores com idade entre 16 e 50 anos em todas as regiões do país. Além de atestar a necessidade da ficha limpa entre os entrevistados, o instituto perguntou aos eleitores sobre o conhecimento no caso de compra de votos, se votariam em algum candidato que lhes oferecessem algum benefício, além de critérios de escolha de candidatos e a importância da participação da magistratura em ações contra a corrupção eleitoral.

Em suas conclusões, o estudo aponta que o conhecimento de crimes eleitorais pode variar de acordo com a escolaridade e a região. Perguntados se conheciam casos de compra de votos, os eleitores do Sul foram os que demonstraram o maior conhecimento: 53% responderam positivamente. Já na região Sudeste, apenas 38% disseram conhecer políticos que compram ou compraram votos. No Nordeste, 44% responderam afirmativamente. Já nas regiões Norte e Centro-Oeste, 49% dos ouvidos denunciaram a prática.

Eleitores com até a 4ª série do ensino fundamental formam a parcela com menos conhecimento da prática. 33% relataram já terem presenciado a compra de votos, contra 57% dos eleitores com ensino superior. Em todo o país, apenas 41% dos eleitores entrevistados disseram que denunciariam à Justiça Eleitoral um candidato que tentasse comprar o seu voto.

Interrogados se votariam em um candidato que oferece benefícios materiais em troca do voto, 85% afirmaram que descartariam o político que tentasse comprar o voto. Já 13% disseram que votariam nele normalmente.


Para ter acesso à íntegra da pesquisa, em PDF, clique aqui

Pesquisa mostra que 85% dos brasileiros são a favor da Ficha Limpa

AGÊNCIA BRASIL, 21 de setembro de 2010

Mesmo levantamento mostra ainda que quase 10% não a conhecem e que 4% são contra a lei


Dados divulgados nesta terça-feira (21) pela Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB) mostram que 85% dos brasileiros são a favor da Lei da Ficha Limpa. Além disso, 43% dos entrevistados conhecem algum caso de político que compra ou já tenha comprado voto e 41% conhecem alguém que já tenha trocado o voto por benefício.

Os dado dão de um levantamento do Instituto Ibope, encomendado pela AMB. O estudo traça o perfil do eleitorado brasileiro. Foram entrevistadas 2.002 pessoas, entre 18 e 21 de agosto, em 140 cidades.

A pesquisa mostra que 9% do eleitorado brasileiro não conhecem a Lei da Ficha Limpa e 3% são contra essa norma, que proíbe a candidatura de políticos com condenações por órgãos colegiados.

“A democracia requer tempo”, disse o presidente da AMB, Mozar Valadares. “Temos de ter compreensão com a história e os costumes do país. É um processo que leva tempo”, completou.

Entre os 85% que aprovam a lei, a maior parte (91%) é de eleitores das regiões Norte e Centro-Oeste. Na análise do nível de escolaridade, 91% dos favoráveis à Ficha Limpa têm curso superior e 88%, ensino médio completo.

Entretanto, a maior parte dos eleitores – 73% - acredita que a política é uma atividade que beneficia os próprios políticos e não a sociedade. E, na hora de escolher o candidato, 21% levam em conta os benefícios que a comunidade ou a própria família pode receber.

“Isso mostra o grau de insatisfação em relação à classe 'político'. O que precisamos, agora, é agilizar as denúncias e punições, para que a sociedade se conscientize”, ressaltou.

domingo, 19 de setembro de 2010

Desníveis: a ferida aberta do Paraná

GAZETA DO POVO, 19 de setembro de 2010

Nas últimas décadas, a crise no campo e a industrialização da região metropolitana de Curitiba fizeram a riqueza se concentrar na capital e nos municípios vizinhos, respondendo por 45,8% do PIB do estado


A desigualdade regional do Paraná é uma grande ferida aberta que precisa receber um tratamento intensivo do próximo governador. A riqueza está concentrada na região metropolitana de Curitiba, que em 2007 foi responsável por 45,8% do Pro­­duto Interno Bruto (PIB) do Para­­ná, apesar de abrigar apenas 34,5% da população. Das outras nove mesorregiões do estado, seis têm participação inferior a 5% no PIB. Esse desnível interno é o pior da Região Sul.

Em Santa Catarina, das seis me­­sor­­re­­giões, apenas uma tem desempenho tão negativo; no Rio Grande do Sul, apesar da polarização em Porto Alegre, a maioria dos agru­­pamentos tem participação razoável no PIB estadual. Os dados são do Instituto de Pesquisa Econô­­mica Aplicada (Ipea) (veja detalhes no infográfico).

Até o início da década de 70, a distribuição de renda no Paraná era bem mais equilibrada. Mas a crise da cafeicultura, a consolidação da Cidade Industrial de Curiti­­ba e a instalação da Refinaria Getúlio Vargas na região metropolitana de Curitiba contribuíram para surgir a ferida da desigualdade. Há 40 anos, apenas duas mesorregiões tinham menos que 5% do PIB estadual – Centro Ocidental e Sudoeste. Em 1980, mais duas mesorregiões se juntaram a esse grupo (Centro Sul e Sudeste) e, em 1996, outras duas (Noroeste e Norte Pioneiro). Atual­­mente, além da região me­­tropo­­litana de Curitiba – que en­­globa também o litoral –, têm participação mais significativa no PIB apenas as mesorregiões Centro Oriental (Campos Gerais), Oeste (Cascavel-Toledo-Foz do Iguaçu) e Norte Central (Londrina-Maringá).

O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), utilizando dados do Censo de 2000, também mostra muitas cicatrizes na população paranaense. “Um grande número de municípios apareceu com desempenho abaixo da média na­­cional”, destaca o professor Fabio Doria Scatolin, do Departamento de Economia da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Outros dados mais re­­centes comprovam esse baixo de­­sem­­penho. Segundo o Índice Fir­­jan de Desenvolvimento Municipal (IFDM), da Federação das Indústrias do Rio de Janeiro, 346 municípios do Paraná (86,7% do total) ficaram abaixo da média brasileira em 2006. O levantamento leva em conta a situação de emprego e renda, educação e saúde da população.

Os especialistas alertam que as desigualdades vão continuar existindo, pois a competitividade das empresas é proporcionada pela concentração espacial, que permite ganhos de escala. “Mas o poder público precisa agir, para evitar maiores fluxos populacionais em direção aos grandes centros, que acabam inchando e criando bolsões de pobreza e violência”, alerta o economista Jandir Ferrera de Lima, professor e pesquisador de Desenvol­­vimento Regional na Unioeste.

No papel, os principais candidatos ao Palácio Iguaçu, Beto Richa (PSDB) e Osmar Dias (PDT), mostram uma grande preocupação com as desigualdades regionais. O tucano propõe a consolidação das regiões de desenvolvimento, consolidando “um contínuo esforço de sinergia entre governo do estado, prefeituras, empresas e o terceiro setor”. O pedetista destacou as discrepâncias sociais e econômicas como um dos principais desafios do Paraná e baseou seu plano de governo no combate a esse problema. Ambos elencam ações em várias áreas – saúde, educação, segurança, geração de emprego e renda. Veja, em seguida, algumas medidas prioritárias, de acordo com especialistas ouvidos pela Gazeta do Povo:

Por uma nova política de desenvolvimento - “Urge a criação de um plano de Estado, e não apenas de governo, para diminuir as disparidades econômicas e sociais das regiões paranaenses”, afirma o economista Jandir Ferrera de Lima, da Unioeste. Segundo ele, é fundamental que o próximo governador tenha vontade política de implementar algumas mudanças, o que não ocorreu durante os últimos três governos estaduais. “Até os anos 90, o Badep [Banco de Desenvolvimento do Paraná] teve um papel fundamental. Depois disso foi criado o Anel de Integração, com a ideia de fortalecer o interior. Mas só as grandes cidades foram beneficiadas”, observa.

Lima sugere a adoção de um modelo que vem funcionando no Rio Grande do Sul, por meio dos conselhos regionais de desenvolvimento. “Eles têm uma grande participação da sociedade civil organizada, assim como das forças políticas de cada região, que fazem a interlocução com o governo estadual. No Paraná, as instâncias que conversam mais com o governador são as associações de municípios, as quais não têm representatividade tão ampla. É preciso a participação de lideranças empresariais e da população nas negociações”, explica.

O pesquisador da Unioeste também defende que o Fundo de Desenvolvimento Urbano (FDU) mude de foco. “O fundo faz muita política de urbanização e pouca coisa no desenvolvimento da região. É preciso vontade política para mudar isso, criando um novo marco regulatório de investimento no Paraná”, diz Lima. O economista Gilmar Mendes Lourenço, coordenador do curso de Economia da FAE, faz coro e diz que falta uma política pública de desenvolvimento regional. “Ela precisa ser feita com base no diagnóstico socioeconômico do estado, o qual deve ser discutido com os agentes de cada região.”

Alimentar as vocações regionais - O apoio aos Arranjos Produtivos Locais (APLs) também é apontado pelos especialistas como um mecanismo viável para o Executivo estadual reduzir as disparidades regionais. Esses agrupamentos normalmente nascem da iniciativa de um empreendedor, que difunde uma ideia ou técnica para uma comunidade, que acaba a desenvolvendo.

O Paraná tem quase 20 APLs formalmente reconhecidos, e aproximadamente outros 80 com potencial. “Até agora, as políticas públicas agiram para reforçar regiões que já tinham grande desenvolvimento. É válido, mas o poder público poderia buscar financiamentos em organismos internacionais, como o Banco Mundial e o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) para apoiar os APLs embrionários”, avalia Fabio Doria Scatolin, da UFPR.

Inovar e pesquisar - Segundo os especialistas, os arranjos são um instrumento muito eficaz para difundir a inovação tecnológica, que é o pano de fundo do desenvolvimento econômico. “Os APLs são um elemento interessante para catalisar o potencial da região na direção de alguma vantagem competitiva ou comparativa, de alguma atividade econômica que melhore a renda da comunidade”, diz Fabio Doria Scatolin.

De acordo com Gilmar Lourenço, da FAE, o governo estadual tem de incentivar as universidades estaduais a fazerem pesquisas e parcerias com a iniciativa privada no interior. “Temos um grande potencial de geração de conhecimento e tecnologia. As instituições estaduais não podem ser vistas como unidades de gasto de recurso, mas sim como polos de desenvolvimento.”

Geração de renda no campo - “O Executivo precisa incentivar atividades com maior potencial de interiorização e que geram oportunidades de emprego, como a pequena produção agrícola diversificada”, sugere Gilmar Lourenço. Ele ressalta que o mais importante é agregar valor ao produto ainda na propriedade, ou pelo menos no interior do estado, e uma atividade a ser explorada seria a fruticultura.

O agronegócio também precisa de espaço. “A vantagem é que no Paraná o setor é dominado pelas cooperativas, que atuam de forma espalhada, o que facilita a identificação de oportunidades. Elas dominam a oferta de matéria- prima agroindustrial e já tem uma capacidade expressiva de industrializar. O governo pode explorar essa estrutura, dando incentivos para a iniciativa privada, para intensificar a interiorização do estado”, acrescenta o professor da FAE. Ele também ressalta que uma das maneiras mais fáceis de gerar emprego é investir em obras de infraestrutura, que também são fundamentais para possibilitar o crescimento do Paraná.

A semente da educação - A qualidade do ensino é fundamental para o crescimento econômico. Isso foi comprovado pela professora Augusta Pelinski, do Departamento de Economia da UEPG, em sua tese de doutorado, apresentada no ano passado. Ela analisou a qualidade do capital humano nas microrregiões paranaenses entre 1999 e 2006, relacionando-o a com o PIB per capita de cada localidade. “O governador precisa se ater à qualidade na formação das pessoas. Não se trata de quantidade de anos passados na escola, mas de indicadores qualitativos, como a remuneração dos professores e o número de alunos em sala de aula”, observa.

A professora e pesquisadora Rosângela Pontili, da Faculdade Estadual de Ciências e Letras de Campo Mourão (Fecilcam), também analisou a relação entre educação e renda nas mesorregiões do Paraná. “Aquelas com pior renda também são as que têm o menor nível de escolaridade média. O comprometimento com a redução das disparidades regionais deve ocorrer em conjunto com políticas públicas que visem a melhoria das condições educacionais da população.” Para ela, é preciso garantir educação pública e de qualidade em todos os níveis.

O próximo passo da transferência de renda - Na oposição ou na situação, virou mantra dos candidatos a afirmação de que os benefícios sociais serão mantidos e ampliados. Segundo os professores ouvidos pela Gazeta do Povo, isso é mesmo necessário, mas o mais importante é ir além: dar condições para que a população não necessite mais da ajuda pública. Além disso, os programas sociais ajudam a reduzir a desigualdade de renda, e não a regional.

No Paraná, tanto Beto Richa como Osmar Dias, os dois principais candidatos ao governo, se comprometeram em manter e ampliar programas que tiveram destaque durante a gestão de Roberto Requião (PMDB): Luz Fraterna, Tarifa Social da Água, Leite das Crianças e regime tributário com isenção para micro e pequenas empresas. O Bolsa Família, do governo federal, também é promessa tanto de Dilma Rousseff (PT) como de José Serra (PSDB).

Rosângela Pontili, da Fecilcam, diz que as ações de transferência de renda são muito importantes. “Em pesquisa realizada junto a pessoas beneficiadas pelo programa bolsa família, do município de Corumbataí do Sul [Centro Ocidental], pude comprovar que a renda obtida a partir deste programa tem impacto positivo sobre o consumo das famílias. Este aumento de consumo traz uma nova dinâmica ao comércio local e pode conduzir a um ciclo virtuoso de crescimento econômico. Mas ela ressalta que os programas de transferência do governo levam em conta a situação de pobreza dos beneficiados, independentemente da região em que estes residem.

“A transferência de renda ajuda muito na manutenção da família e na segurança alimentar. Mas é preciso começar a discutir: em qual momento essas pessoas vão deixar os programas sociais”, avalia o professor da Unioeste, Jandir Ferrera de Lima.


Para aumentar o gráfico clique na imagem



sábado, 18 de setembro de 2010

Propina era paga dentro da Casa Civil

Vinícius Castro, sócio de Israel Guerra, recebeu R$ 200 mil reais dentro da sala onde despachava, a poucos metros do gabinete da ministra da Casa Civil

VEJA, 18 de setembro de 2010


A reportagem de capa de VEJA desta semana traz mais indícios da extensão do balcão de negócios que funcionava dentro da Casa Civil. A revista relata o episódio em que o jovem advogado Vinicius de Oliveira Castro, sócio do filho da ex-ministra Erenice, se surpreendeu ao encontrar 200 000 reais na gaveta de sua mesa de trabalho. “Caraca! Que dinheiro é esse? Isso aqui é meu mesmo?”, disse.

De acordo com o texto, o dinheiro era parte de um pagamento da turma responsável pela usina de corrupção que funcionava dentro do Palácio do Planalto. Um colega mais experiente explicou: “É o ‘PP’ do Tamiflu, é a sua conta. Chegou para todo mundo”. ‘PP’ significa propina no linguajar da repartição. Tamiflu é o medicamento utilizado para tratar da gripe suína. Dias antes, em 23 de junho, o governo fechara um contrato de 34,7 milhões de reais para compra emergencial da droga. O Ministério da Saúde nega qualquer ingerência da Casa Civil na aquisição de Tamiflu, que já gastou 400 milhões de reais aos cofres públicos.

A história foi revelada a VEJA por um amigo de Vinícius que trabalhava no governo e seu tio, Marco Antonio Oliveira, então diretor de Operações dos Correios. A revista informa que ambos os depoimentos foram gravados. Vinícius relatou ao tio, sem dizer nomes, que outros três funcionários da Casa Civil receberam os pacotes de 200 000 reais. “Foi um dinheiro para o Palácio. Lá tem muito negócio, é uma coisa”, afirmou. Para receber o valor, o ex-assessor da Casa Civil (pediu exoneração na segunda-feira) explicou ao tio que não precisou fazer nada para receber a propina. O pagamento Era o ‘cala-boca’. “Eu avisei que, se continuasse desse jeito, ia sair algemado do Palácio”, lembrou o ex-diretor dos Correios.

Além de ex-funcionário do Planalto, Vinícius foi sócio de Israel Guerra, filho de Erenice Guerra, ex-ministra da Casa Civil (teria sido demitida na quinta-feira), numa empresa que intermediava contratos com o governo. A influência de Erenice no alto escalão do governo garantia bons negócios. E, pelos indícios, alcançava o repugnante fato de receber os favores da corrupção dentro do Palácio de Planalto, numa sala ao lado do gabinete da ministra-chefe da Casa Civil.

'Caraca! Que dinheiro é esse?'


VEJA,Diego Escosteguy e Otávio Cabral 18 de setembro de 2010

Funcionário da Casa Civil recebeu propina dentro da Presidência da República, perto do gabinete da então ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, e a um andar do presidente Lula


Numa manhã de julho do ano passado, o jovem advogado Vinícius de Oliveira Castro chegou à Presidência da República para mais um dia de trabalho. Entrou em sua sala, onde despachava a poucos metros do gabinete da então ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, e de sua principal assessora, Erenice Guerra Vinícius se sentou, acomodou sua pasta preta em cima da mesa e abriu a gaveta.

O advogado tomou um susto: havia ali um envelope pardo. Dentro, 200 mil reais em dinheiro vivo – um “presentinho” da turma responsável pela usina de corrupção que operava no coração do governo Lula.

Vinícius, que flanava na Agência Nacional de Aviação Civil, a Anac, começara a dar expediente na Casa Civil semanas antes, apadrinhado por Erenice Guerra e o filho-lobista dela, Israel Guerra, de quem logo virou compadre.

Apavorado com o pacotaço de propina, o assessor neófito, coitado, resolveu interpelar um colega: “Caraca! Que dinheiro é esse? Isso aqui é meu mesmo?”. O colega tratou de tranquilizá-lo: “É a ‘PP’ do Tamiflu, é a sua cota. Chegou para todo mundo”.

PP, no caso, era um recado – falado em português, mas dito em cifrão. Trata-se da sigla para os pagamentos oficiais do governo. Consta de qualquer despacho público envolvendo contratos ou ordens bancárias. Adaptada ao linguajar da cleptocracia, significa propina. Tamiflu, por sua vez, é o nome do remédio usado para tratar pacientes com a gripe H1N1, conhecida popularmente como gripe suína.

Dias antes, em 23 de junho, o governo, diante da ameaça de uma pandemia, acabara de fechar uma compra emergencial desse medicamento – um contrato de 34,7 milhões de reais. A “PP” entregue ao assessor referia-se à comissão obtida pela turma da Casa Civil ao azeitar o negócio Segundo o assessor, o governo comprara mais Tamiflu do que o necessário, de modo a obter uma generosa comissão pelo negócio.

Até a semana passada, Vinícius era assessor da Casa Civil e sócio de Israel Guerra, filho de Erenice Guerra, ex-ministra da pasta, numa empresa que intermediava contratos com o governo usando a influência da petista. Naturalmente, cobravam comissão pelos serviços.

Depois que VEJA revelou a existência do esquema em sua última edição, Vinícius e outro funcionário do Planalto, Stevan Knezevic, pediram demissão, a ministra Erenice caiu – e o governo adernou na mais grave crise política desde o escândalo do mensalão, e que ronda perigosamente a campanha presidencial da petista Dilma Rousseff.

Lançado ao centro do turbilhão de denúncias que varre a Casa Civil, Vinícius Castro confidenciou o episódio da propina a pelo menos duas pessoas: seu tio e à época diretor de Operações dos Correios, Marco Antonio de Oliveira, e a um amigo que trabalhava no governo. Ambos, em depoimentos gravados, confirmaram a VEJA o teor da confissão.

Antes de cair em desgraça, o assessor palaciano procurou o tio e admitiu estar intrigado com a incrível despreocupação demonstrada pela família Guerra no trato do balcão de negócios instalado na Casa Civil. Disse o assessor: “Foi um dinheiro para o Palácio. Lá tem muito negócio, é uma coisa. Me ofereceram 200 000 por causa do Tamiflu”.

Vinícius explicou ao tio que não precisou fazer nada para receber a PP. “Era o ‘cala-boca". O assessor disse ainda ao tio que outros três funcionários da Casa Civil receberam os tais pacotes com 200 000 reais; porém não declinou os nomes nem a identidade de quem distribuiu a propina. Diz o ex-diretor dos Correios: “Ele ficou espantado com aquela coisa. Eu avisei que, se continuasse desse jeito, ele iria sair algemado do Palácio”.

O cândido ex-assessor tem razão: dinheiro sujo dentro de um gabinete da Presidência da República é um fato espantoso. Nos últimos anos, sobretudo desde que o presidente Lula relativizou os crimes cometidos durante o mensalão, sempre que se apresenta um caso de corrupção à opinião pública surgem três certezas no imaginário popular.

* Primeiro, nunca se viu um escândalo tão escabroso

* Ninguém será punido

* O escândalo que vier a sucedê-lo reforçará as duas certezas anteriores.


A anestesiada sociedade brasileira já soube de dinheiro na cueca, dinheiro na meia, dinheiro na bolsa, dinheiro em caixa de uísque, dinheiro prometido por padre ligado a guerrilheiros colombianos. Mas nada se compara em ousadia ao que se passava na Casa Civil. Ficará consolidado no inverno moral da era Lula se, mais uma vez, esses eventos forem varridos para debaixo do tapete.

Já se soube de malfeitorias produzidas na Presidência, mas talvez nunca de um modo tão organizado e sistemático como agora – e, ao mesmo tempo, tão bisonhamente rudimentar, com contratos, taxas de sucesso e depósitos de propina em conta bancária.

Por fim, o que pode ser mais escabroso do que um grupo de funcionários públicos, ao que tudo indica com a participação de um ministro da Casa Civil, cobrar pedágio em negócios do governo? O mais assustador, convenha-se, é repartir o butim ali mesmo, nas nobres dependências da cúpula do Poder Executivo, perto do presidente da República e ao lado da então ministra e hoje candidata petista Dilma Rousseff.

Na semana passada, quando o caso veio a público, a candidata do PT ao Planalto, Dilma Rousseff, tentou se afastar o quanto pôde do escândalo. Apesar de o esquema ter começado quando Dilma era ministra e Erenice sua escudeira, a candidata disse que não poderia ser responsabilizada por “algo que o filho de uma ex-assessora fez”. Dilma candidata não tinha mesmo outra alternativa. As eleições estão aí e o assunto em questão é por demais explosivo.

Erenice Guerra ganhou vida em razão do oxigênio que Dilma lhe forneceu durante sete anos de governo. Erenice trabalhou com a candidata quando esta comandava a pasta de Minas e Energia e na Casa Civil transformou-se na assessora-mor da petista, assumindo o cargo de secretária-executiva. É possível que em todos esses anos de intenso trabalho conjunto Dilma não tenha percebido o que se passava ao seu redor. É possível que Dilma seja uma péssima leitora de caráter. Mas, em algum momento, ela vai ter que enfrentar publicamente esse enorme contencioso passado.

Obedecendo à consagrada estratégia política estabelecida pelo PT, Dilma não só tentou se distanciar do caso como buscou desqualificar os fatos apresentados por VEJA. “É um factoide”, afirmou a candidata, dois dias antes de Erenice ser demitida pelo presidente Lula. (O governo divulgou que a ministra pediu demissão, o que é parolagem.)

A chefe da numerosa família Guerra caiu na manhã da última quinta-feira, vítima dos vícios da sua turma. Além dos fatos apontados por VEJA, veio a público o atávico hábito da ex-ministra em empregar parentes no governo, que, desde já, dá um novo significado ao programa Bolsa Família. Também se descobriram contratos feitos sem licitação favorecendo parentes da ministra.

Em um dos episódios, o filhote de Erenice cobrou propina até de um corredor de Motocross, que descolara um patrocínio de 200 000 reais com a Eletrobrás, estatal sob a influência de Erenice. Taxa de sucesso paga: 40 000 reais. “Israel chamava a Dilma de tia”, contou o motoqueiro Luís Corsini, o desportista que pagou a taxa de sucesso.

Antes de capitular aos irretorquíveis fatos apresentados por VEJA, o governo fez de tudo para desqualificar o empresário Fábio Baracat, uma das fontes dos jornalistas na revelação do esquema de arrecadação de propina na Casa Civil. Baracat, um empresário do setor aéreo, narrara, em conversas gravadas, as minúcias de suas tratativas com a família Guerra, que tinham por objetivo facilitar a obtenção de contratos da empresa MTA nos Correios.

No sábado, depois de, como disse, sofrer “fortes pressões”, Baracat divulgou uma nota confusa, na qual “rechaçava oficialmente informações" da reportagem, mas, em seguida, confirmava os fatos relatados. Com medo de retaliações por parte do governo, o empresário refugiou-se no interior de São Paulo. Ele aceitou voltar à capital paulista na última quinta-feira, para mais uma entrevista. Disse ele na semana passada: “Temo pela minha vida. Vou passar um tempo fora do país”. O empresário aceitou ser fotografado e corroborou, diante de um gravador, as informações antes prestadas à revista.

Baracat não quis explicar de onde partiram as pressões que sofreu, mas, em uma hora e meia de entrevista gravada, ratificou integralmente o conteúdo da reportagem. O empresário confirmou que, levado por Israel e Vinícius, encontrou-se várias vezes com Erenice Guerra, quando ela era secretária-executiva e, por fim, quando a petista virou ministra.

As primeiras conversas, narra Baracat, serviram para consolidar a convicção de que Israel não vendia falsamente a influência da mãe. Na última conversa que eles tiveram, em abril deste ano, o tom mudou. Israel cobrava dinheiro do empresário por um problema resolvido para ele na Infraero.

Diz Baracat: “Ele dizia que havia pagado na Infraero para resolver”. Na reunião, disse Erenice, de acordo com o relato do empresário: “’Olha, você sabe que a gente está aqui na política, e a gente tem que cumprir compromissos’. (...) Ficou subentendido (que se tratava da propina). (Ela) foi sempre genérica (nesse sentido). (...) Ela disse: ‘A gente é político, não pode deixar de ter alguns parceiros’”. Baracat diz que não sabe o que a família Guerra fez com o dinheiro.

O misterioso caso da comissão do Tamiflu também merece atenção das investigações iniciadas pela Polícia Federal e pela Procuradoria-Geral da República. O Ministério da Saúde, que já gastou 400 milhões de reais com a aquisição do remédio desde o ano passado, afirma que não houve qualquer ingerência da Casa Civil – e que a quantidade de Tamiflu comprada foi definida somente por critérios técnicos.

A seguir, mais uma história edificante

Em outros episódios, a participação da Casa Civil aparece de forma mais clara. VEJA apurou mais um caso no qual o poder da Casa Civil dentro do governo misturou-se aos interesses comerciais da ex-ministra, resultando numa negociata de 100 milhões de reais. Desta vez, o lobista central da traficância não é o filho, mas o atual marido de Erenice Guerra, o engenheiro elétrico José Roberto Camargo Campos.

Com a ministra Dilma Rousseff na Casa Civil e a esposa Erenice Guerra como seu braço direito, Camargo convenceu dois amigos donos de uma minúscula empresa de comunicações a disputar o milionário mercado da telefonia móvel. Negócio arriscado, que exige muito capital e experiência num ramo cobiçado e disputado por multinacionais. Isso não era problema para Camargo e seus sócios. Eles não tinham dinheiro nem experiência, mas sim o que efetivamente importa em negócios com o governo: os contatos certos – e poderosos.

Em 2005, a empresa Unicel, tendo Camargo como diretor comercial, conseguiu uma concessão da Anatel para operar telefonia celular em São Paulo. Por decisão pessoal do então presidente da agência, Elifas Gurgel, a empresa do marido ganhou o direto de entrar no mercado. De tão exótica, a decisão foi contestada pelos setores técnicos da Anatel, que alegaram que a empresa sequer havia apresentado garantias sobre sua capacidade técnica e financeira para tocar o negócio.

O recurso levou dois anos para ser julgado pela Anatel. Nesse período, Erenice e seu marido conversaram pessoalmente com o presidente da agência, conselheiros e técnicos, defendendo a legalidade da operação. “A Erenice fazia pressão para que os técnicos revissem seus parecereres e os conselheiros mudassem seu voto”, conta um dos membros do conselho, também alvo da pressão da ex-ministra.

A pressão deu certo. O técnico que questionou a legalidade da concessão, Jarbas Valente, voltou atrás e mudou seu parecer, admitindo os “argumentos” da Casa Civil. Logo depois, Valente foi promovido a conselheiro da Anatel. Um segundo conselheiro, Pedro Jaime Ziller, também referendou a concessão a Unicel. Não se entende bem a relação entre uma coisa e a outra, mas dois assessores de Ziller, logo depois, trocaram a Anatel por cargos bem remunerados na Unicel.

Talvez tenham sido seduzidos pelos altos salários pagos pela empresa, algo em torno de 30 000 reais – muito, mas muito mais do que se paga no serviço público. O presidente Elifas foi pressionado diretamente pelo Ministro das Comunicações, mas nem precisava: ele foi colega de Exéricito de um dos sócios da Unicel. Tudo certo? Não. Havia ainda um problema a ser sanado.

A legislação obriga as concessionárias a pagar 10% do valor do contrato como entrada para sacramentar o negócio. A concessão foi fixada em 93 milhões de reais. A empresa, portanto, deveria pagar 9,3 milhões de reais. A Unicel não tinha dinheiro.

Novamente com Erenice à frente, a Unicel conseguiu uma façanha. O conselho da Anatel acatou o pedido para que o sinal fosse reduzido para 1% do valor do negócio, ou seja, pouco mais de 900 000 reais. A insólita decisão foi contestada pelo Ministério Público e, há duas semanas, considerada ilegal pela Justiça.

Com a ajuda estatal, a empresa anunciou o início da operação em outubro de 2008, com o nome fantasia de AEIOU, prometendo tarifas mais baixas para atrair o público jovem, com o compromisso de chegar a um milhão de clientes em dois anos. Como foi previsto pelos técnicos, nada disso aconteceu.

Hoje, a empresa tem 20 000 assinantes, sua única loja foi fechada por falta de pagamento de aluguel e responde a mais de 30 processos por dívidas, que ultrapassam 20 milhões de reais. Mau negócio? Apesar da aparência, não. A grande tacada ainda está por vir.

O alvo do marido de Erenice é o Plano Nacional de Banda Larga (PNBL) – uma invenção que vai consumir 14 bilhões de reais para universalizar o acesso a internet no Brasil. O grupo trabalha para “convencer” o governo a considerar que a concessão da Unicel é de utilidade pública para o projeto. Com isso, espera receber uma indenização. Valor calculado por técnicos do setor: se tudo der certo, a empresa sairá com 100 milhões de reais no bolso, limpinhos.

Dinheiro dos brasileiros honestos que trabalham e pagam impostos.

A participação da Casa Civil no episódio ultrapassa a intolerável fronteira das facilidades e da pressão política. Aqui, aparecem diretamente as promíscuas relações entre os negócios da família Guerra e os funcionários que, dentro da Presidência da República, deveriam zelar pelo bem público.

A Unicel contou, em especial, com os favores de Gabriel Boavista Lainder, assessor da Presidência da República e dirigente do Comitê Gestor dos Programas de Inclusão Digital, que comanda o PNBL. Antes de ocupar o cargo, Gabriel trabalhou por oito anos com os donos da Unicel. Mas isso é, como de costume, apenas uma coincidência – como também é coincidência o fato de ele ter sido indicado ao cargo pelo marido de Erenice.

“O marido da Erenice é um cara que admirava meu trabalho. Ela me disse que precisava de alguém para coordenar o PNBL”, diz Laender. E completa: “O PNBL não contempla o uso da faixa da Unicel, mas ela pode operar a banda larga do governo se fizer adaptações técnicas” É um escárnio.

Camargo indicou o homem que pode resolver os problemas de sua empresa. Procurado, o marido de Erenice não quis se pronunciar. Na Junta Comercial, o nome de Camargo aparece como sócio de uma empresa de mineração, que funciona em modesto escritório em Brasília. Um probleminha que pode chamar a atenção dos investigadores: a Unicel está registrada no mesmo endereço, que também era usado para receber empresários interessados em negócios com o governo. Certamente mais uma coincidência.

Com reportagem de Rodrigo Rangel, Daniel Pereira, Gustavo Ribeiro e Fernando Mello

Quem é Erenice Guerra

A ficha da ex-ministra da Casa Civil, sucessora de Dilma Rousseff, revela um histórico de casos polêmicos

Braço direito de Dilma Rousseff, Erenice Guerra, 51 anos, tornou-se ministra-chefe da Casa Civil em abril deste ano, quando Dilma saiu do posto para disputar a Presidência. Antes, tentou, sem sucesso, ocupar uma cadeira no Tribunal de Contas da União (TCU) e no Superior Tribunal Militar (STM). Formada em direito, filiou-se ao PT em 1981. Veja abaixo escândalos envolvendo a ex-ministra:

Lobby na Casa Civil
setembro de 2010 Reportagem de VEJA revelou que o filho de Erenice, Israel Guerra, comanda, com ajuda da ministra, um esquema de lobby dentro da Casa Civil. Por meio do pagamento de uma “taxa de sucesso”, o filho da ministra facilita a aproximação entre empresários e o governo. Um empresário do setor aéreo relatou ter conseguido contratos de R$ 84 milhões nos Correios após pagar um percentual de 6% ao grupo de lobistas. Nesta segunda-feira, 13, um dos assessores da Casa Civil citados no esquema, Vinícius de Oliveira Castro, pediu demissão.

Em prol dos Sarney
agosto de 2009 A pedido de Dilma Rousseff, Erenice Guerra foi ao gabinete da então secretária da Receita Federal, Lina Vieira, para agendar uma reunião entre as duas. Na ocasião, Dilma pressionou Lina a encerrar uma investigação do Fisco sobre a família de José Sarney. Dilma negou o encontro. Lina revelou detalhes sobre ele, citando Erenice. As imagens do circuito interno de TV do Palácio do Planalto, que poderiam comprovar ou desmentir a reunião, sumiram, como revelou VEJA em julho de 2010.

Dossiê contra FHC
abril de 2008 Como secretária-executiva da Casa Civil, Erenice Guerra comandou a elaboração de um dossiê sobre gastos pessoais do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e da ex-primeira-dama Ruth Cardoso. O documento seria usado para chantagear políticos da oposição, em revanche às revelações de gastos de ministros de Lula feitas pela CPI dos Cartões Corporativos. O governo blindou Erenice e Dilma. A número 2 da Casa Civil sequer foi citada na sindicância interna sobre o caso

Filho de Erenice 'nomeou' amigos para pasta de Dilma

FOLHA DE S. PAULO, 18 de setembro de 2010

O filho de Erenice Guerra, que perdeu o cargo após acusações de tráfico de influência, levou amigos para trabalhar na Casa Civil quando o ministério era comandado por Dilma Rousseff, candidata do PT à Presidência.

Israel Guerra e dois amigos são apontados por empresários como o "grupo do lobby" que usava uma empresa privada para intermediar reuniões, viabilizar projetos e liberar recursos no governo.

Israel, Stevan Kanezevic, Vinícius Castro e Marcelo Moreto trabalharam juntos na Anac (Agência Nacional de Aviação Civil). Em seguida, os três amigos do filho de Erenice foram nomeados para ocupar cargos na Casa Civil sob Dilma --quando Erenice, seu braço direito e depois sucessora, era secretária-executiva da pasta.

Vinícius foi nomeado assessor de Erenice Guerra. Stevan é cedido para o Sipam (Sistema de Proteção da Amazônia), subordinado à Casa Civil. Um ano antes, Moreto, que não foi citado por envolvidos no escândalo até aqui, já havia trocado a agência pelo cargo de assessor técnico do Sipam.

Tão logo Vinícius e Stevan saíram da Anac, foi aberta em Brasília a Capital Consultoria, que começou as atividades em 6 de julho de 2009.

Trata-se da firma que tem Vinícius e Israel como sócios ocultos e que foi usada para ajudar uma empresa do setor aéreo a conseguir autorização da Anac e fechar contrato com os Correios, primeiro negócio a lançar suspeitas de tráfico de influência.

Stevan é citado pelos consultores Fábio Baracat e Rubnei Quícoli como um dos mais atuantes nas promessas de abrir portas. Estava sempre presente nas reuniões com Vinícius e Israel.

Ontem, Stevan pediu demissão do cargo no Sipam e voltou à Anac. Ele é o terceiro que cai depois das acusações de que o lobby da Capital levou empresários para audiência dentro da Casa Civil, como a Folha revelou.

Tio de Vinícius, o ex-diretor dos Correios Marco Antonio de Oliveira afirmou à Folha que o filho de Erenice fazia nomeações na Casa Civil.

Ele confirma que o próprio sobrinho foi um dos indicados de Israel. "Eles se conheceram na Anac e, na saída da Anac, o Vinícius recebeu o convite do Israel para trabalhar na Casa Civil", disse.

Oliveira reclama que a irmã foi usada como laranja. No papel, uma das sócias da Capital é a mãe de Vinícius, Sônia Elizabeth Oliveira Castro, que sobrevive vendendo queijo no interior de Minas.

"[Criaram] uma empresa para fazer consultoria geral. Ele não poderia aparecer porque era do governo. Por isso botou minha irmã. Acho uma coisa deplorável", disse.

Segundo relato de Vinícius ao tio, a Capital resolveu um problema da empresa MTA (Master Top Airlines) na Anac, que renovou o contrato com a companhia cargueira, ampliando o prazo de três para dez anos mesmo com parecer técnico contrário da agência. "Era esse o perfil deles, vinham da Anac."

Outros lados - Procurados pela Folha, Stevan e Vinícius não foram localizados. O Sipam informou que Moreto está em férias. Ele também não foi localizado. O advogado de Israel, Eduardo Ferrão, não respondeu às ligações.

A Casa Civil informou que Moreto foi nomeado pela Secretaria Executiva da Casa Civil, à época ocupada por Erenice. Stevan foi nomeado pelo secretário de Administração, Norberto Temóteo.

"Essas nomeações atenderam a solicitações do diretor-geral do Sistema de Proteção da Amazônia", diz a nota.

Blindando Dilma

O GLOBO, Merval Pereira, 18 de setembro de 2010


O Palácio do Planalto está agindo rapidamente para se livrar de todos os traços do esquema de tráfico de influência que a ex-ministra da Casa Civil Erenice Guerra implantou no principal gabinete do Palácio do Planalto, ao lado do do presidente da República.

Desta vez o presidente Lula pode até mesmo dizer, como costuma, que de nada sabia, já que sua ligação com Erenice era apenas administrativa.

Se tivesse colocado, como queria, Miriam Belchior no lugar de Dilma, teria sido uma indicação pessoal baseada numa relação histórica de luta partidária com o próprio presidente.

Miriam seria uma personagem na política palaciana menos importante do que foi José Dirceu, mas, assim como é difícil imaginar que Dirceu montou o esquema do mensalão sem que Lula fizesse a menor ideia do que estava acontecendo, ficaria também difícil a ele se dissociar das ações de Miriam Belchior, viúva do ex-prefeito assassinado Celso Daniel, a quem Lula reservara papel de destaque no seu primeiro mandato.

Os erros de Erenice, amplamente divulgados e comprovados a cada dia, têm apenas uma ligação política possível, e é com Dilma Rousseff.

Já escrevi aqui que a relação de Dilma com Erenice é a mesma de Lula com Dilma: criador e criatura.

A família de Erenice não atuaria com tamanha desenvoltura em diversas áreas do governo se não tivesse a certeza de que estava segura por laços políticos e, sobretudo, de amizade.

Fica difícil acreditar que, tendo feito tudo o que está relatado nos últimos dias quando era o braço-direito de Dilma na Casa Civil, Erenice Guerra não deixou rastros de sua movimentação e nem dava à sua chefe imediata e amiga informações sobre o que estava fazendo.

Quanto às alegações de que o consultor Rubnei Quícoli, por sua ficha corrida nada exemplar, não teria credibilidade para sustentar as denúncias, é bom lembrar que em todos os casos, em que surgiram os escândalos dos últimos anos, foram justamente pessoas envolvidas nas negociatas que denunciaram seus "cúmplices".

Pedro Collor não se entendeu com o irmão presidente sobre a partilha do butim e denunciou Fernando Collor. Roberto Jefferson sentiu-se traído em seu esquema montado nos Correios e abriu o bico, denunciando o mensalão.

Quando o empresário e consultor Rubnei Quícoli diz que parte da propina que lhe pediram seria alegadamente para financiar a campanha da ministra Dilma Rousseff à Presidência da República, surge um indício de uso de caixa dois na campanha eleitoral que precisa ser investigado e esclarecido.

Ainda mais porque as demais denúncias feitas acabaram mostrando-se verdadeiras, provocando a saída não apenas da ministra como de vários parentes seus de diversos cargos espalhados pela República.

Ontem, mais um servidor do Palácio do Planalto foi demitido rapidamente. O consultor Rubnei Quícoli apontara em entrevista um tal de Stevan, que descreveu assim: "Ele é um avião, tem uma porta aberta na Casa Civil e outra no BNDES." Em meio às negociações para aprovação de projeto de energia solar no Nordeste - avaliado em R$ 9 bilhões, que não saiu do papel - surgiu Stevan, que seria a ligação do governo com a Capital Consultoria.

Pois não é que existe mesmo o tal de Stevan? Seu sobrenome é Knezevic, e ele trabalhava no Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Sipam), órgão subordinado à Casa Civil.

Ele regressou ao seu órgão de origem, a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), que, digase de passagem, está transformada em um enorme cabide de empregos para os apaniguados do governo, assim como os Correios, a Receita Federal e outras estatais.

O "aparelhamento" do Estado, que tem um caráter político de controle das atividades por membros dos part i d o s e s i n d i c a t o s q u e apoiam o governo, tem também, ou sobretudo, o seu lado mercantilista.

Vários parentes de Erenice passaram por lá, inclusive o filho Israel Guerra. Não é difícil imaginar que os dois, Stevan e Israel, conheceramse na Anac e de lá partiram para as ações de lobby no Palácio do Planalto.

Há outro detalhe interessante no episódio da demissão da ministra Erenice Guerra: ao obrigá-la a sair do Gabinete Civil, o presidente Lula está retirando, pelo menos simbolicamente, seu aval às decisões da candidata Dilma Rousseff.

Se, eleita presidente, Dilma pretendia colocar Erenice no Gabinete Civil, contra a vontade de Lula, que quer naquele lugar o ex-ministro Antônio Palocci, que outras escolhas Dilma fará? Sua capacidade de nomear os principais assessores sai do episódio bastante arranhada, além do que persiste uma estranha sensação de que seu eventual futuro governo, pois a eleição para o Palácio do Planalto e seu entorno é tida como uma fatura já liquidada, começou em clima de crise.

O que a família Guerra não poderia fazer num governo da "madrinha" Dilma?

É impressionante como pessoas de bem aceitam participar de um órgão que não tem a menor influência nas decisões do governo.

Presidida pelo ex-ministro do Supremo Tribunal Federal José Paulo Sepúlveda Pertence, a Comissão de Ética Pública decidiu, em meio à crise gerada pela demissão da ministra Erenice Guerra, puni-la com uma advertência porque ela não apresentou documentos com informações sobre a sua evolução patrimonial e relação de parentes ocupando cargos públicos.

Uma punição que deveria ter sido dada em maio, quando expirou o último prazo. E poderia ter evitado que tantos parentes da ministra se espalhassem pelo governo.

A Comissão já havia sofrido uma grande derrota em 2007, quando tentou fazer com que o ministro do Trabalho, Carlos Lupi, deixasse de acumular o ministério com a presidência do PDT.

A queda de braço levou a que a comissão sugerisse a demissão do ministro, e a solução foi encontrada meses depois: Lupi fingiu que se licenciou da presidência, e a Comissão fingiu que havia vencido a disputa.

Franklin Martins resistiu até o fim

VEJA, Radar on-line, Lauro Jardim

Desde terça-feira (14), o governo em peso já era a favor da demissão de Erenice Guerra. Foram apenas dois os ministros que resistiram até o último minuto: Franklin Martins e Alexandre Padilha. Franklin era o mais exaltado. Mandando às favas a moralidade pública, não queria ninguém fora do governo por causa de uma revelação cuja origem foi a imprensa. Ele perguntava aos colegas: “Se entregarmos a Erenice, que cabeças pedirão depois?”. Como Lula gosta de repetir: “Quem não deve não teme”.

Apenas cálculo eleitoral

O ESTADO DE SÃO PAULO, Editorial, 18 setembro de 2010


No encontro que tiveram domingo à noite para tratar da revelação de uma pesada operação de traficância na Casa Civil do Planalto, o presidente Lula poderia ter determinado à ainda ministra Erenice Guerra que se licenciasse até o esclarecimento cabal da denúncia que a envolvia por tabela e, diretamente, um de seus filhos, Israel. Por muito menos, afinal, o presidente Itamar Franco afastou o ocupante do mesmo cargo no seu governo, Henrique Hargreaves - para readmiti-lo quando as acusações contra ele não foram comprovadas.

Mas Lula não parece aprender com o exemplo alheio nem com a própria experiência. Com o exemplo, no caso, porque a sua visão da ética pública não é a de princípios, mas a de resultados. E com a experiência porque, ao fim e ao cabo, não precisou pagar o preço devido, fossem outras as circunstâncias e, quem sabe, outro fosse o país, pela relutância em se privar do ministro José Dirceu, também da Casa Civil e pivô do mensalão, e do seu colega da Fazenda, Antonio Palocci, no escândalo da violação do sigilo bancário do caseiro Francenildo.

Erenice Guerra saiu daquela reunião com a cabeça no pescoço não porque o chefe, como diria, se acha "obrigado a acreditar" no que as pessoas lhe falam, e Erenice jurou-lhe por tudo o que é sagrado que era inocente. Mas porque ele avaliou que a reportagem incriminadora da revista Veja não teria o potencial de respingar na candidata Dilma Rousseff - que está para Erenice como Lula está para ela, criadores e criaturas - da mesma forma que não respingaram, a julgar pelas pesquisas, as violações em série do sigilo fiscal de parentes e aliados do opositor José Serra.

Por isso, o que o lulismo se ocupou em fazer nos dias seguintes foi desqualificar o noticiário sobre as movimentações da espaçosa família Guerra pelas pradarias do poder. Nesse exercício de mistificação e cumplicidade, Dilma levou a palma, ao afirmar que tudo se resumia a um "factoide". Sintomaticamente, a soberba de Lula, a certeza de que o seu prestígio garantiria a incolumidade da candidata, desarmou a sua apuradíssima intuição. Ele decidiu manter Erenice no lugar enquanto não surgisse um fato novo que agravasse a crise, mesmo depois de a ministra ter ido além das tamancas ao culpar um "candidato aético e já derrotado" por suas atribulações.

O fato novo não tardou a surgir. Na quinta-feira, a Folha de S.Paulo publicou declarações de um agenciador de negócios, segundo as quais Israel e a sua patota, em troca da obtenção de recursos do BNDES para um bilionário projeto de energia solar, queriam receber R$ 240 mil para acelerar a tramitação do pedido, 5% sobre o valor do financiamento, quando saísse - e, de quebra, um ajutório de R$ 5 milhões para a campanha de Dilma. Decerto achando a conta salgada demais, a firma interessada se recusou a pagar. Por sua vez, o seu agente disparou e-mails para a Casa Civil reclamando das cobranças e fazendo ameaças. Passados mais de 7 meses, falou.

Com incomum rapidez, Lula mandou Erenice se demitir. A segunda denúncia, semelhante à anterior, teria enfim convencido o presidente da responsabilidade da ministra. "Quando a gente está na máquina pública, não tem o direito de errar", proclamou. "E se errar, a gente tem de pagar." Conversa. O que o fez defenestrar Erenice - a quem havia nomeado por insistência de Dilma, quando ela se desincompatibilizou - foi o temor manifestado pela campanha petista, com base em pesquisas, de que desta vez a candidata corria o risco de ser atingida pelos estilhaços das malfeitorias do círculo da amiga em quem apregoava confiar.

A demissão de Erenice não elimina a hipótese. Os episódios expostos aconteceram quando Dilma era ministra e Erenice a sua mais íntima colaboradora. É implausível que ela não lhe tivesse contado nem uma versão sanitizada dessas histórias. Plausível, isso sim, é que Dilma não quisesse saber mais. Como Lula não quis saber detalhes do mensalão para o qual foi alertado duas vezes. A ignorância assumida é um ato de vontade política. Eles olham para o outro lado para não fitar o ambiente propício à corrupção que semearam no Planalto como parte de um projeto de poder.